quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“Raulseixismo deveria ser ensinado nos colégios” *

Sempre com frases marcantes como o ídolo Raul Seixas, o paranaense de Apucarana (60 km distante de Maringá), João Elias da Silva, 40, é “pipeiro” e praticante de vôo livre quando não está nos palcos. Há 13 anos faz cover de Raul e se diz formado pela escola da vida, que, segundo ele, é a melhor que existe. Raulzito – como é conhecido – atrai fãs de Raul Seixas por onde passa.
O “Maluco Beleza” paranaense contou sobre a vida, projetos e falou do ídolo Raul Seixas em entrevista concedida ao jornal Matéria Prima.

Há 13 anos você é cover de Raul Seixas. Como começou essa história?
Rock and roll nem se aprende nem se ensina. Eu acho que já nasci com isso no meu DNA. Meu DNA é “r”, “o”, “c”, “k”. Deve ser esse o meu código genético. Rock and roll começou assim, vem de berço. Sou de uma família de evangélicos e de músicos, o começo veio daí. O fato de ser parecido com Raul não fui eu que percebi. Perceberam para mim. Antigamente eu tocava em uma lanchonete da minha cidade – nem quero falar o nome de lá, porque eu vendo eles e eles não me vendem – e todo mundo toca Raul em lanchonete. Eu tocava Jerri Adriani, “para bailar la bamba”, “wisky a gogo”, esse negócio de barzinho que o pessoal faz. E eu fazia umas músicas de Raul, acho que tocava umas quatro só. Aí o pessoal lá começou a assemelhar meu timbre de voz com o do Raul Seixas. E um amigo meu, o Marcelinho da Rádio Globo FM, me convidou para fazer “Viva Raul e reviva Beatles”, na Cogumelo´s [boate], e foi recorde de público. Nessa época eu nem tinha barba, usava postiça. Emprestava de um amigo meu, o Luizinho que era da Banda Portal da Cor. Então começamos a fazer alguns shows, mas é aquele negócio, quando as coisas começam a dar certo, o olho começa crescer em cima, aí os caras começam a desviar verba. Esse negócio de grana é uma complicação, daí eu sai. Peguei outro empresário, mas era a mesma coisa. Foi então que fiquei sozinho.

A banda Alfa Éden recentemente lançou o primeiro CD, “No princípio”. No mês que vem a banda vai tocar nos Estados Unidos, em Orlando, na Flórida. Como você começou a pensar no trabalho com músicas próprias?
Antes do Grela [guitarrista], do João [baixista] e do Gobbi [baterista] tocarem comigo, tinha uns outros caras que tocavam. Mas eu queria injetar música minha na banda e eles não curtiam. E eles só podiam tocar dia de sábado. De domingo não podia tocar muito longe porque tinha que dar tempo de ficar com a namorada. Vê se eu aguento? E eu precisava de grana, cara. Aí eu falei: “meu, desse jeito não vai dar para tocar com vocês, não”. Tirei os caras da banda no ato. Eles queriam me bater. Quando entrou o Grela e o Joãozinho, eu comecei a mostrar umas músicas que eu faço para eles e eles gostaram, começaram a curtir. Aí começamos a tocar nos shows. Aí pensamos: “ah meu, vamos gravar um CD”. Então eu consegui a ajuda de alguns empresários amigos e a gente gravou em Maringá. Não tenho medo de falar em valores, foi R$ 8.500 para gravar, mais R$ 2.800 para fazer as cópias. Sabe quanto que eu tinha no bolso? Nada. Eu fui atrás de amigos empresários, só que eu levei uma bucha. Eu combinei com quatro caras, que cada um ia dar uma força. Fui ao estúdio e armei a parada. Mas, na hora em que fui atrás deles para pegar a grana, pularam fora. Ficou só um. Aí eu tive que rebolar, porque o negócio já estava em andamento. Mas, graças a Deus, deu tudo certo. E a gente vende os CD´s nos shows. Nas lojas por enquanto ainda não. A gente faz os shows, no palco anunciamos que tem CD no camarim para vender. Às vezes a gente ganha mais dinheiro com venda de CD no show do que com o próprio cachê.

E essa viagem para os EUA?
Vai ser um marco na história da banda e na minha história de vida. Dois fatos importantes: não estou indo lá me aventurar com a cara e a coragem. Outro fato: não estou indo expulso do país. Estou indo para lá, convidado pela produtora MW Star Production, e realizando um sonho que, porra, não é para qualquer um. Vale a pena o esforço, cara. Eu estava conversando com meu guitarrista que depois que voltarmos dos EUA, podemos fazer uma turnê com o “Nenhum de Nós”, que são amigos nossos lá de Porto Alegre. E vamos tocar Raul Seixas, mas também mostrar nosso trabalho próprio porque tem muito brasileiro por lá.

Por meio das músicas, Raul criticava a sociedade em que vivia e a mídia. Mas foi essa sociedade e essa mídia que o ajudaram a se tornar mito do rock nacional. Qual sua opinião em relação a isso?
O grande defeito do brasileiro é gostar daquilo que não pode. Se não pode ter pitbull, os caras têm pitbull. Se não pode tirar racha de carro, os caras tiram racha de carro. Se não pode beber para dirigir, os caras bebem para dirigir. Mas é o povo que consagra. O Raul odiava fazer show. O negócio dele era ficar “tô pulando muro com Zezinho no fundo do quintal da escola” [canta Raulzito]. Ele era aquele tipo de cara que ficava atrás do muro, ou seja, dentro do estúdio, e fazia aquela porção “letrística–bombástica”, jogava por cima do muro e ficava só ouvindo o estouro. É assim que funcionava. Aí o brasileiro, como tudo que não pode, gosta, e na época era proibido proibir. Raul aproveitava esse espaço e através das músicas, das palavras, ele acabava se projetando. Nesse grande “círculo-circo” formado na mídia, vários artistas pagam para ficar lá aparecendo. Já Raul Seixas não pagava para se aparecer, mas a mídia pagava, obrigava, chorava e implorava para que ele fosse se apresentar, porque era o público, a massa que empurrava ele lá. E até hoje é assim. Raulseixismo deveria ser ensinado nos colégios. É uma filosofia de vida. Raul Seixas é começo, meio e fim. Ele escreveu a bíblia do rock nacional. Nela diz: Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei.

Raul Seixas afirmava que “a desobediência é uma virtude necessária à critavidade” e "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal". Em sua opinião, o que Raul Seixas queria dizer com esses tipos de frase?
Essas palavras que Raul injetava na época eram uma afronta ao poder público. Porque estavam em período de ditadura, um regime militar muito estreito. E ele aproveitava essas alfinetadas que até hoje servem ao “Monstro Sist” [o sistema a que somos submetidos], porque a gente sabe que vive em um país de faz de conta. A lei aqui só existe para pobre e rico não tem lei. É assim que funciona. A desobediência é uma virtude necessária justamente por causa disso, não existia liberdade de expressão. Ele aproveitava a música para “mandar ver”. Raul apanhou várias vezes, foi preso, foi expulso do país. E quando ele foi expulso e ficou nos Estados Unido (EUA), onde ele encontrou John Lenon, teve uma conversa e falaram sobre os donos do planeta. Nesse período estourou o álbum Gita aqui no Brasil. Então o consulado do Brasil nos EUA foi atrás de Raul Seixas e disse que ele precisava voltar. Ele perguntou por que tinha de voltar. E responderam que ele era uma personalidade brasileira e o disco dele havia estourado em vendas. “Você tem que ir, você tem que voltar”, falaram. Parece que na época foram vendidas 600 mil cópias em uma semana, do álbum. O povo estava pedindo Raul Seixas aqui. Diante dessas frases, afrontadoras na época, a gente ouve isso e dá certo alívio. É uma palavra a mais na boca da gente. Hoje Raul é contemporâneo, pelo que ele falava, continua falando e vai falar ainda por muito tempo. Essa música nova dele parece que escreveu ontem. Na época essa letra era proibida e foi modificada e agora está aqui, original. Como ele mesmo dizia, os homens passam, mas a música fica. Não adiantou mudarem a letra, ela voltou a ser original.

Raul seixas teve a morte abreviada em razão do alto consumo de bebidas alcoólicas e também pelo consumo de drogas. Como cover e fã confesso de Raul você bebe ou usa drogas?
Primeiro eu faço cover do Raul Seixas cantor, não da vida dele. Existem covers por aí que confundem e querem fazer cover da vida de Raul. Até sobem bêbados no palco. Hoje o alcoolismo pode ser encarado como uma doença. Eu tenho o vício do cigarro e sei o que é ter vício, é terrível. Eu já li matéria sobre Raul dizendo que aos 11, 12 anos de idade era comum vê-lo em bares bebendo as cachaças dele. Eu não consigo beber. Minha mulher até ri de mim porque se eu tomar uma latinha, eu acabo. Sobre drogas, já morei com um cara que não conseguia se drogar mais e eu tive que aplicar nele. Tinha um amigo meu que queimava todas as minhas colheres para preparar crack. Eu já fumei muita maconha, sobre drogas e álcool é um assunto bem complexo. Eu já tenho 40 anos de idade e bate aquele tic, para segurar a onda, caso contrário vai acabar caindo numa pior. Então a gente acaba segurando a onda, procurando ter certa estrutura psíquica.

Você teve uma infância sofrida e sem estrutura.
Acho que a melhor escola que tem é a da vida. As pessoas que vêm de uma carreira política, que nascem num berço de ouro, têm tudo na mão. Pra mim político não vale nada, eles não fazem por valer, porque antes o governo até poderia trabalhar para a gente, mas agora é a gente que trabalha para ele. Eles querem entrar e nunca mais querem sair. Eles não veem um cargo público. Eles entram ali e querem ficar para sempre. O dinheiro corrompe, a corrupção existe, mas no Brasil é escancaradamente exagerado. Eu amo essa terra e tenho vergonha de quem a conduz. A mídia mostra todo dia, toda hora, e ninguém faz nada. E tudo mundo acha que está certo. A “mulherada” está mostrando a bunda na TV. Todo mundo está “trepando” na TV. Um americano, ou alemão, não sei ao certo, veio para o Brasil e começou a andar pelado e prenderam o cara, mas ele alegou que achava que era normal. Então, olha só a imagem do Brasil lá fora. O Brasil é o país da “marvadeza”, da safadeza e quem vai levando na cabeça é a classe média e a baixa. É na escola da vida que aprendi esses lances aí. Até acho que sei algumas coisinhas, do tipo dois vezes dois.

*Entrevista publicada no jornal laboratório Matéria Prima
Por Ederson Hising

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