domingo, 29 de novembro de 2009

Recordações

eu lembro
foi quando cortei o cabelo
você estava de saia camuflada
- disfarce equivocado –
entrou tímida
olhares contidos
eu como sempre calado

eu lembro
foi quando você voltou
você estava de jeans
- e rosto maquiado –
entrei tímido
você misteriosa
olhares trocados

eu lembro
foi quando voltei do vestibular
você estava de shortinho
- e blusa cor de rosa –
sentei à beira do caminho
você me abraçou
olhares hipnotizados
mãos e dedos entrelaçados

eu lembro
foi quando invernou
você estava de azul
- desviando-se para os lados –
encostei ao portão
você atirou tudo ao chão
olhares inconformados

eu lembro
não me canso de lembrar
essa saudade sorrateira
embaralha meu pensar


Por Ederson Hising

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Marionete


Há tanto a vida me leva pelos braços, vezes arrastado, vezes como uma marionete-sem-futuro, sem escrúpulo algum. Há tanto não tenho parado para pensar no quão ruim tenho sido e no que pode ser melhor para mim nesse momento. Não tenho, porque, afinal, não tenho parado para nada. Nada, que sinto e me sinto; nada que sou. O que faz um tapa ao chão? O que o faz a mim, se é que sou digno de ser considerado alguém. A grande possibilidade de ser considerado um impossibilitado tem me trazido café à cama todos os dias, com um sorriso meia-boca, sem graça. Mas, se queres me fazer desistir, antes, me faça acreditar que posso ser algo. Ao léu, sinto falta do choro, do riso, da fé, e até dela, a quem chutei e jurei a mim mesmo não querer mais ver. Aquilo sim era epopéia, peça magistral, distinta desse teatro sem cor, monótono e monólogo, de cortinas que se abrem para escancarar a derrota da mais sem futuro das marionetes, o escritor de meia-pataca e sem rumo algum.


Por Erick Gimenes

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Manifesto à desistência

Desista, cara. Ou você acha que vai chegar a algum lugar sendo fraco desse jeito? Para de reclamar e arruma um emprego de homem. Esqueça esse curso sem futuro e invista seu dinheiro em algo que te dê retorno. Que mania imbecil de sonhar com o futuro. É por isso que você está aí, agora, sentado à beira da cama, sem sono e preocupado sem saber com o que.
Sim, cara. Tudo isso que você tem feito será em vão. Ou você também acha que será recompensado pelo esforço? Se manca. Caia na real. Isso é balela de filminhos dos “states”.
Ah, também esqueça essa história toda de tentar mudar o mundo. Não, você não vai fazer uma revolução. Não adianta perder seu tempo com essas literaturas imbecis, assim como você.
Leia algo que faça de você uma pessoa com menos sonho e mais ação. Frusciante é bom, mas, porra, o cara tem talento e, por isso, não me venha com seus covers baratos.
Esqueça cara. Você é fraco, humano e limitado. Sem contar que usa apenas o mínimo de seu tempo com algo útil.
Essa garota que você gosta não está nem aí para você. E quer saber? Certa ela. Que futuro um homem de meia tigela que nem você vai ter? Para de viadagem. Você vai perder para qualquer um mesmo. O problema é você.
Você não viu, cara? Já é madrugada. Amanhã você acorda cedo e está aí, com essa boca cheia de dentes comendo e ouvindo música estranha com os olhos cheios d’água.
Você não tem jeito, cara. Contente-se com seu ostracismo. Desista de sua vida mais ou menos. É o melhor que tem a fazer.


Por Ederson Hising

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Insônia

Os dias as horas o calendário
a noite invadiu a madrugada
que agora me atormenta
nesse quarto de paredes brancas
e janela aberta
nesse quarto de cômoda de guarda-roupa
de cama de televisão de poeira
e de mim. Quatro paredes
me cercam e algo provoca
– aqui dentro –
uma inquietude constante.

Por Ederson Hising