sábado, 24 de abril de 2010

Noites claras


Largo meus pensamentos à geladeira, fria como as noites que estou passando. Sentados, sob a romântica cena, eu a mesa oval fitamos a só lâmpada de meu refrigerador escancarado. Peço conselhos ao silêncio – junto aos meus ouvidos, ele urra consciência, traz claridão aos meus miolos, já bastante consumidos. Ela, cara de pau, mantém-se de boca fechada. E os solos da guitarra genial baladeiam meu cérebro, como que com os dedos - tocando, tocando, tocante. A frieza do eletrodoméstico continua aberta, como em minh´alma, gastando a energia que não me incomoda mais – pois não a tenho há tempos.

Peço um brinde. Toco meu copo d´água ao vento, num movimento vazio, e sorrio. “À bela noite!”, exclamo. Porque não comemorar encontro tão feliz com as verdades que me permeiam? Caio sobre a mesa aos abraços, e lhe declaro amor. Por mais dura que seja, ela tem sido amiga, de verdade, em baladas como esta. E a peço licença. Preciso, olho a olho, encarar a nudez dos fatos. Ficamos algum tempo ali, abraçados diante das estrelas, loucamente apaixonados pelos mistérios da vida.

E o sol vem, esquentando minha gelidez, deposta em formas estranhas. E faz-me menos frio. E me amanhece. E me destrói. E vem. E vou.

A alvorada, que se aproxima, tem sido clara demais para os homens, cegando os olhos dos que os abrem sem destreza. Visão, quem diria, causa dependência.

Eu, a mesa, e os fatos, perdidamente deitados sobre a lua. Só a noite me dá tal oportunidade. Prego meus joelhos ao chão recortado em quadrados brancos, e, rendido, suplico: que minhas queixas morram ao clarear! Que os dias sejam tão sinceros quanto a escuridão! E que o café da manhã seja melhor que todo este leite derramado.


Por Erick Gimenes

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