sábado, 28 de março de 2009

Filme de Terror

Só vejo mortos-vivos. Desorientados, desacordados, mal-cheirosos e feios, muito feios. Seus olhares fechados se cruzam naquele salão. Suas faces boquiabertas, babam a impotência de não poder fazer nada além de estar ali, apáticos, imóveis. Presos, ali eles permanecem dia a dia, numa espécie de contagem regressiva para a implosão de suas histórias, e sob a vigilância e o cuidado dos vampiros. Ah, os vampiros! Vestidos com roupas pomposas, sustentam-se assim. Ficam ali, a todo instante, prontos a se lançar ao primeiro pescoço que ousar sair da estática posição a que foram acomodados. Outrora, sugam-lhes aquele sangue vermelho claro, já quase frio. Falsa sensação poder. Por aqueles mares, quem navega às pampas são os fantasmas.
Vestes brancas, imponência, ócio. À cadeira, expelem arrogância e ruídos assustadores, enchem o peito para gabar-se: podem estar em qualquer lugar, a qualquer hora. Não há discussão, são os melhores, afinal, passaram por uma vida a chegarem até ali, não?
Por vezes, Freddy passa para nos visitar. Há dias que, atordoado, esquece uma cabeça ou outra. Mas não há mal, sempre volta a buscá-las. Ainda faz gracejo, diz que trabalhar em casa não faz bem.
Vou lhe dizer. No início amedrontei-me com a situação. Por noites ficava reproduzindo aquele cenário em minha mente sonolenta, não conseguia pregar os olhos.
Era engraçado. Minhas pálpebras de modo algum encaixavam-se em uma posição confortável para o descanso.
Mas, como em tudo por aqui, acabei por me acostumar. Não havia e não há outro jeito.
É como..
Só um minuto.
Por favor, passe-me o bisturi, Jason?


Por Erick Gimenes

5 comentários:

  1. Muito bom o Post.
    Estava lendo e me lembrei de alguns filmes de terror que me assustavam na infância. o Boneco Assassino, Jason, Dracula. Aqueles filmes antigos eram os que mais me causavam medo. Mal sabia eu, que o terror era tão bom e o medo era tão fascinante em comparação aos terrores e os medos que me atormentam nos dias de hoje, na vida real. Doce ilusão.
    Ótimo Post Erick.

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  2. Muito bom....terceira vez que leio,tenho certeza que essa experiencia no hospital ainda vai inspirar muitas outras produções...Parabéns escritor!Beijos

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  3. Como diria Alexandre Gaioto: SENSACIONAL!
    E com toda essa explicitação do que aos seus - escritor - olhos ocorre em determinado trabalho, mais tenho certeza que estou no lugar certo.
    Com amor

    Willia....

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  4. "Quando acordar, quero ver ele lá", e vai ver o que em seu subconsciente? Sonhar com horas trabalhando na crônica, absorver alguma inspiração alheia que te leve à psicoledelia? A colocação das palavras na ordem exata, fazendo com que a imaginação de muitos trabalhem em prol de alguma lembrança remota de um passado, presente - por que não futuro, então. Associação com vários termos, o texto me lembrou a hierarquia de uma sala de aula, algum ser perdido entre tantos outros livros de ficção...
    É um nome de futuro, Erick. É um autor a ser lembrado - seja pela percepção da realidade mesclada com o insano, ou outra saída favorável da sua brilhante escrita.

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