Recordo-me sem esforço de meu primeiro dia de aula. Escrever os números de 1 a 100 foi minha grande missão. Minha e de alguns ilustres companheiros (as) de classe. Sentado à frente de Ciclinda, a professora, o gordinho de cabelo lambido e óculos, mostrava-se empenhado – como seguiu por muitos anos, até descobrir que era desnecessário tanto esforço assim.
Só que dessa vez, a historia não é minha e sim daquela garota magriz, com quem não conversava. Passaram-se anos, cinco para ser mais exato, e o máximo que arriscávamos era um oi, muito tímido por sinal. A pequena bailarina, com discrição, conseguia passar despercebida aos olhos da maioria.
Separados pelos caminhos da vida, mal nos trombávamos na pacata cidadela que não consta no mapa. Parece ironia, mas, foram necessários mais cinco anos, para que enfim, pudéssemos ter uma relação, no mínimo, de coleguismo – inicialmente.
Dez anos depois, muita coisa mudou. O Brasil era penta, não existiam mais Torres Gêmeas e Lula, quem diria, estava no segundo mandato. No rapaz, o cabelo lambido deu lugar a uma despenteada cabeleira e a barriga, incrivelmente, havia diminuído. Na moça, a discrição deu lugar à molequice e as sapatilhas foram trocadas por belos pares de all-star.
Unidos novamente pelo destino dentro de uma sala de aula, por razões inexplicáveis foram colocados lado a lado. Começara ali, a razão desta história, até então, introdutória.
De lá para cá, a relação se tornara intensa, mas caros leitores – se é que os tenho – podem tirar o cavalinho de chuva, pois não é uma história de amor ou sexo. Trata-se de algo que nem os dois entendem. E, diga-se de passagem, é preciso, Débora?
Questionamentos a parte, voltemos ao que interessa neste momento. Débora e o escriba, por diversas vezes, são acusados de atos que não praticam, entre os dois, é claro. Mas isso não interfere em nada, apenas é motivo para boas e vagarosas risadas.
Risadas. Ah, risadas. Inconfundíveis risadas, vocês tem, não? Uma mais estranha que a outra. O que sempre acaba em mais risada. Aliás, juntos o que mais praticamos nessa vivência é a felicidade.
A irmandade, outrora confundida pelas famílias, tornou-se algo essencial. Atualmente, é motivo de indagações nas residências dos nobres amigos, quando um não aparece procurando pelo outro. Indagações tão naturais quanto as brincadeiras e garotices praticadas em conjunto.
Gostos em comum, olhares que se decifram e presença que completa. Unidos, em presença ou em mente, são capazes de confortar e fazer companhia um ao outro, mesmo quando não temos saco para nada.
Arrisco-me a dizer que os anos com Débora causam remorso. Afinal, porque ter esperado dez anos? E digo mais. Para mim, todos deveriam ter uma Débora. Porque afirmo isso? Justamente por não me ver mais sem uma dessas.
Por Ederson Hising
Reinvenção de Vanessa da Mata
Há 7 anos
Se um tal de Carlos Emori Junior fosse mulher, ele seria então a Débora. Minha Débora. Belíssima descrição, caro amigo escriba.
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