quinta-feira, 29 de julho de 2010

Os três pedais

Aprendi que a vida tem três pedais, assim como os carros. E explico. Da mesma maneira que os automóveis, em sua maioria, são equipados com acelerador, embreagem e freio, a vida também é. Ando criando teorias nos últimos dias, essa é mais uma delas. Confesso, tenho ficado tempo demais em casa.

Começo pelo mais fácil, sim, o acelerador. Ainda mais quando somos jovens, fica tão fácil utilizar tal pedal. E mesmo se o nosso anda meio baixo, vem alguém e nos leva de carona – ou, até mesmo, guinchado. Quando tudo vai bem, aceleramos sem perceber. Subidas, descidas, curvas, tudo se torna fácil, o pedal dá conta.

Se algo vai mal, não é tão difícil assim acelerar - em determinados casos. E se não for com a gente então, esquece, não paramos de afundar o pé no pedal da direita.

A embreagem, dizem por aí, que é difícil de utilizar – eu não acho. Na verdade, para mim, este pedal é traiçoeiro. Sim, nos engana quanto à realidade, pois funciona mais ou menos como passar a mão na cabeça do filho. É, a embreagem é enganosa. Mesmo assim, não a condeno por completo. Tem lá suas funções – nos faz continuar muitas vezes.

Já o pedal central, o freio, este mesmo que por muitas vezes você se esqueceu que existia, é quem deveria ser parte fundamental de nossas vidas. Mas, não, preferimos arriscar. Frear pra quê? É coisa de careta. Eu também pensava assim – pensava.

Fato é que, em determinadas situações, somos rasos demais para vermos que devemos parar. Já fui desses que ignorava o freio. Parei com isso quando ele não foi suficiente. Sim, meus caros, às vezes, é tarde para tentar usá-los, e é exatamente neste momento, que, tardiamente, reconhecemos que o certo seria ter parado.

Já se vão quase três meses desde o dia em que meus freios não foram suficientes. A ferida ainda está aberta. Tratei logo de colocar um punhado de gases por cima – meu sorriso amarelo e meus olhos murchos – para que as pessoas não se espantassem. Ela teima em não fechar. Ainda me ensina.

O ponto final esteve perto. Entretanto, ganhei outro parágrafo. E só depende da minha inteligência com os pedais para transformá-lo em uma nova história.

Por Ederson Hising

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Criança

Mal sabem as crianças quantas somos. Falo isso porque, tão brinquedo quanto os carrinhos, peguei-me gargalhando de mim mesmo, flagrei-me coreografando a música que cantava sozinho lutando contra a água que escorria do chuveiro; alcancei-me, valoroso, correndo de braços abertos contra os ventos da inocência.

Antes já havia notado.

Vi-me fazendo birras para a vida. Soltei pipa com o descaso. Voei com as asas de Batman. E, pequeno, me pus na parede: para quê quero mais vida que isso?

Talvez os fios de barba semicrescidos em meu rosto, já sujo, tenham me deixado esquecer alguns valores.

Deitar no chão com Pingo, descalço, rolar com ele como se o mundo fosse ladeira de duas almas sem quinas. Ignorar a imundice das meias, que pouco importava se elas me davam a oportunidade de tirar os pés do chão, de deslizar. Deslizar um sorriso, escorrendo sobre o rosto ainda sem pancadas.

Quão egoístas somos crescidos, ao ponto de chatearmo-nos quando chamados de crianças, de acharmo-nos melhores que elas - que não estão nem aí para esses conceitos infantis. “Seu criança”, julgam os donos da verdade, enrugados de alma.

Orgulho-me por guardar um fio dos tempos bons. Os homens, tal qual as frutas, amadurecem para cair.

Infelizmente, já rolei o chão. Os mesmos galhos não me sustentarão novamente, não posso voltar a mesma forma que tinha, mas guardo, com a sinceridade das plantas, a seiva que abstrai das raízes.

Eu sei, o dia acabou. Eu só queria brincar mais um pouquinho.


Por Erick Gimenes

domingo, 25 de julho de 2010

Eu no mundo

Já botei tudo a perder e não perdi,
já fui longe demais e consegui voltar,
já dei razões para não merecer outras chances
e nem por isso deixei de dar certo.
Já fui tão óbvio a ponto de reconhecer
os erros antes de cometê-los.
Já me afundei em vícios e consegui me livrar,
já dei provas de que posso mais,
só não entendo os males que acometem.
Eu tenho pago por tudo que fiz.

Já dei murro em ponta de faca
e me machuquei tempos depois.
Já cansei de rimar,
já cansei também de tentar
pôr as vírgulas nos lugares certos.
Já perdi a conta das ajudas que recusei,
já pensei em tantos erros passados e chorei.
Já faz tanto tempo que te procuro,
já utilizei todos os artifícios ao meu alcance.
E se tudo deu errado
procuro o que possa ter dado certo.
Mesmo que não exista.

Por Ederson Hising

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cicatrizes

As cicatrizes
são mais do que marcas físicas,
são mais, bem mais do que isso

tenho duas:
a da perna, molequice
a do queixo, burrice.


(Por Ederson Hising)

domingo, 18 de julho de 2010

Sala de espera

.




























Nada,
nem ninguém.


Por Erick Gimenes

sábado, 10 de julho de 2010

Cheiro de chuva

Devorava os telejornais do almoço. Esperava, engolindo o arroz petrificado a seco, inquietando-me nas costuras do sofá creme, a moça sentenciar o que viria. O sol, quando brilhava na tela, apagava meus anseios. Eu, que louco, torcia pela previsão de chuva como que por um gol de meu time.

Queria ela. Aquela voz, batendo ao chão, total fascínio. Amava ouví-la, na janela de meus ouvidos, e viajar, surfando nas águas que não passavam de gotas. A chuva, sim, era meu sol. Era minha galáxia.

Via em seu semblante que ela queria levantar a poeira de meu espírito – elevá-lo até as nuvens, para que, penso eu, mostrasse seu crescimento no álbum de recordações que guardara. E eu alcançava os céus mesmo, infalivelmente, quando ela dava as caras. Era minha paz, meu delírio.

Intrigante como sempre me trazia bons momentos. Era aparecer e, junto, vinham novas ótimas a mim. Aquele beijo, aquela festa, aquele pedido. Aquela menina, e aquele abraço. Aquele choro. Deleite. Tudo ao seu lado.

Todas as coisas encharcavam-se com sua presença, assim como eu. E não contentava-me com as garoas que me sorriam meia-dose. Era louco mesmo pelas mais assustadoras tempestades, repletas de raios e trovões. Elas pareciam ter saído do mesmo pote que eu. Eram, cabeças-duras, sinceridade à tona, feitas da pureza da loucura. Gritávamos, eu e ela, com os olhos, um ao outro.

Por muitos dias, ela sabe, senti-me sozinho. Muitas vezes precisei de seu afago, mas ela não é minha - eu é quem sou dela -, e tive que engolir, como o arroz, sua falta a seco. Mas bastava olhar aos céus, e lembrava-me do que mais admirava.

Seu cheiro.

Pedia, com as mãos ao alto, seu abraço, para que pudesse sentir aquele aroma. Por minha vida, que doçura era aquela? O perfume de sua chegada me trazia euforia. Era prenúncio de vitória. De colo. Era sob seu ar que, mais tarde, vivia os melhores momentos de minha história.

Cheirá-la era meu vício.

Mas, sequei-me. Em tempos, perdi-me no deserto. Não sentia mais os temporais, pois, no árido de minha vida, eles não existiam mais. Enterrei todas minhas conquistas, antes celebradas por eles, na areia daquela imensidão de erros. Sem ela, senti sede. Senti-me só.

Desidratado, rolei nas dunas à procura de qualquer gole que pudesse me salvar. Deitei, atolado, e supliquei. Rendi-me, jogado.

A chuva. Queria ela. Precisava dela. Preciso dela.

Hoje ainda tenho a boca seca. As freqüentes profecias da moça do tempo não me levantam tantos suspiros como antes. Aquelas tempestades, como eram, talvez não apareçam nunca mais. Talvez, vai saber, a pureza daquele tempo nunca mais me molhe.

Mas me sinto bem. Rios de grandeza, sob as máscaras de amigos, têm cuidado de minha secura. A cada dia, nascentes de águas puras parecem umedecer, pouco a pouco, meu ser. Nuvens carregadas, que só o vento sabe para onde vão me levar - e que parecem decorar, novamente, o céu de minha alegria.

Que as águas rolem. Sinto cheiro de chuva.



Por Erick Gimenes