Devorava os telejornais do almoço. Esperava, engolindo o arroz petrificado a seco, inquietando-me nas costuras do sofá creme, a moça sentenciar o que viria. O sol, quando brilhava na tela, apagava meus anseios. Eu, que louco, torcia pela previsão de chuva como que por um gol de meu time.
Queria ela. Aquela voz, batendo ao chão, total fascínio. Amava ouví-la, na janela de meus ouvidos, e viajar, surfando nas águas que não passavam de gotas. A chuva, sim, era meu sol. Era minha galáxia.
Via em seu semblante que ela queria levantar a poeira de meu espírito – elevá-lo até as nuvens, para que, penso eu, mostrasse seu crescimento no álbum de recordações que guardara. E eu alcançava os céus mesmo, infalivelmente, quando ela dava as caras. Era minha paz, meu delírio.
Intrigante como sempre me trazia bons momentos. Era aparecer e, junto, vinham novas ótimas a mim. Aquele beijo, aquela festa, aquele pedido. Aquela menina, e aquele abraço. Aquele choro. Deleite. Tudo ao seu lado.
Todas as coisas encharcavam-se com sua presença, assim como eu. E não contentava-me com as garoas que me sorriam meia-dose. Era louco mesmo pelas mais assustadoras tempestades, repletas de raios e trovões. Elas pareciam ter saído do mesmo pote que eu. Eram, cabeças-duras, sinceridade à tona, feitas da pureza da loucura. Gritávamos, eu e ela, com os olhos, um ao outro.
Por muitos dias, ela sabe, senti-me sozinho. Muitas vezes precisei de seu afago, mas ela não é minha - eu é quem sou dela -, e tive que engolir, como o arroz, sua falta a seco. Mas bastava olhar aos céus, e lembrava-me do que mais admirava.
Seu cheiro.
Pedia, com as mãos ao alto, seu abraço, para que pudesse sentir aquele aroma. Por minha vida, que doçura era aquela? O perfume de sua chegada me trazia euforia. Era prenúncio de vitória. De colo. Era sob seu ar que, mais tarde, vivia os melhores momentos de minha história.
Cheirá-la era meu vício.
Mas, sequei-me. Em tempos, perdi-me no deserto. Não sentia mais os temporais, pois, no árido de minha vida, eles não existiam mais. Enterrei todas minhas conquistas, antes celebradas por eles, na areia daquela imensidão de erros. Sem ela, senti sede. Senti-me só.
Desidratado, rolei nas dunas à procura de qualquer gole que pudesse me salvar. Deitei, atolado, e supliquei. Rendi-me, jogado.
A chuva. Queria ela. Precisava dela. Preciso dela.
Hoje ainda tenho a boca seca. As freqüentes profecias da moça do tempo não me levantam tantos suspiros como antes. Aquelas tempestades, como eram, talvez não apareçam nunca mais. Talvez, vai saber, a pureza daquele tempo nunca mais me molhe.
Mas me sinto bem. Rios de grandeza, sob as máscaras de amigos, têm cuidado de minha secura. A cada dia, nascentes de águas puras parecem umedecer, pouco a pouco, meu ser. Nuvens carregadas, que só o vento sabe para onde vão me levar - e que parecem decorar, novamente, o céu de minha alegria.
Que as águas rolem. Sinto cheiro de chuva.
Por Erick Gimenes
Reinvenção de Vanessa da Mata
Há 7 anos
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