segunda-feira, 26 de julho de 2010

Criança

Mal sabem as crianças quantas somos. Falo isso porque, tão brinquedo quanto os carrinhos, peguei-me gargalhando de mim mesmo, flagrei-me coreografando a música que cantava sozinho lutando contra a água que escorria do chuveiro; alcancei-me, valoroso, correndo de braços abertos contra os ventos da inocência.

Antes já havia notado.

Vi-me fazendo birras para a vida. Soltei pipa com o descaso. Voei com as asas de Batman. E, pequeno, me pus na parede: para quê quero mais vida que isso?

Talvez os fios de barba semicrescidos em meu rosto, já sujo, tenham me deixado esquecer alguns valores.

Deitar no chão com Pingo, descalço, rolar com ele como se o mundo fosse ladeira de duas almas sem quinas. Ignorar a imundice das meias, que pouco importava se elas me davam a oportunidade de tirar os pés do chão, de deslizar. Deslizar um sorriso, escorrendo sobre o rosto ainda sem pancadas.

Quão egoístas somos crescidos, ao ponto de chatearmo-nos quando chamados de crianças, de acharmo-nos melhores que elas - que não estão nem aí para esses conceitos infantis. “Seu criança”, julgam os donos da verdade, enrugados de alma.

Orgulho-me por guardar um fio dos tempos bons. Os homens, tal qual as frutas, amadurecem para cair.

Infelizmente, já rolei o chão. Os mesmos galhos não me sustentarão novamente, não posso voltar a mesma forma que tinha, mas guardo, com a sinceridade das plantas, a seiva que abstrai das raízes.

Eu sei, o dia acabou. Eu só queria brincar mais um pouquinho.


Por Erick Gimenes

Um comentário:

  1. Feliz vc, que consegue reconhecer e conviver com a "criança" que um dia foi! =)
    Ótimo post Xu..
    Bjoka =**

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