sábado, 29 de agosto de 2009

Guerra sem nexo


Tal qual dois moleques, Globo e Record se estapeiam, durante os últimos dias, frente aos genuflexos olhos brasileiros. O conflito é mais um episódio da infindável guerra midiática, que acontece desde o início dos tempos dos veículos de comunicação. Ao campo de batalha, as maiores emissoras do país se enfrentam, sem vergonha, em um “Coliseu televisivo”, assistido pelo público boquiaberto. Como acontecia na áurea época romana, os homens condenados são sempre engolidos vorazmente pelos leões. Infelizmente, no teatro que presenciamos, a informação é a perdedora. Os leões: Edir Macedo, Roberto Marinho e seus sucessores.

Desde a compra da TV Paulista – contestada até hoje, por suposta falsificação de documentos -, em 1964, a Rede Globo de Televisão domina as ações televisivas brasileiras, monopolicamente. O domínio sempre foi claro e reconhecido pelas outras emissoras – o “padrão Globo” de produção. De fato, a empresa de Marinho tinha os melhores recursos e profissionais. Mas, como tudo neste mundo, a hegemonia se foi.

Pelo que se vê na imprensa, a antes incapaz vitória sobre a Rede Globo, em termos de audiência, agora acontece frequentemente. Líder da ascensão, a Rede Record parece ter ganhado confiança com tal possibilidade. Agora, exibe sorrisos de campeão para todos os lados, gabando-se e perdendo as estribeiras.

A emissora, pertencente ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, cresceu monstruosamente sim, tendo como núcleo do sucesso a competente equipe de jornalismo e programas de reconhecido sucesso no exterior, como os reality shows “Troca de Família” e “A Fazenda”. Porém, frequentemente erra, soterrando chavões veiculados a todo o momento em sua grade, como “Record, jornalismo de verdade”, deixando de lado notícias verdadeiras e conteúdos enriquecedores, endeusando a incessante busca pelo triunfo sobre a concorrência.

Após sucessivas vitórias da emissora de Macedo em audiência, os discretos ataques recíprocos se tornaram declarada guerra pessoal entre os líderes e suas peculiaridades. O clímax da peleja se deu quando, no dia 11 de junho, o Jornal Nacional (principal telejornal da Globo) exibiu aproximadamente dez minutos de reportagem acusativa ao bispo. A Record respondeu com mais: um programa inteiro, o Repórter Record, sobre os podres da desafeta e de seus líderes, Roberto Marinho e os filhos.

A partir desse momento, praticamente todos os programas e ações têm mensagens subliminares agressivas ideologicamente. A importância do público se apequenou diante do medo de cair ante ao rival; a televisão brasileira virou ringue de dois pequenos gigantes, que disparam socos subjetivos de olhos fechados, a todos os lados e sem escrúpulo.

Triste ver o momento midiático em que vivemos no Brasil, em tempos que precisaríamos de sua força, quando políticos são cada vez mais insolentes e a população, mais cética. A guerra da mídia é a da revolução, não a do retrocesso, como a que presenciamos atualmente. Chateado, torço para que não se perca o soldado mais leal nessa batalha sem nexo: a informação de qualidade.


Por Erick Gimenes

sábado, 22 de agosto de 2009

Falta lógica

Insisto no que é novo
e o óbvio sempre me cala.
Não vejo meu futuro,
apenas imagino, projeto.
Na lógica dos filmes,
minha luta valeria a pena.

Mas como é triste reconhecer
que na vida falte lógica.

Um som caipira ecoa
e por não mais rimar,
esqueço-me das rimas,
e tudo flui diferente.
Meus pensamentos,
de ontem a hoje,
intermitentes sensações
aproximam o abismo.
Preso, observo,
estranhamente almejo.

Ouvir o que não queria
é entender as evidências
do passado confuso.
Cansa assistir tudo passar,
esperando pela lógica dos filmes.

E como é triste reconhecer
que na vida falte lógica.


Por Ederson Hising

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Apenas um relato ou até mesmo um auto-retrato



Será que essa merda vai valer a pena? Será que um dia vou parar de levar tapa na cara da vida? Será que amanhã vai fazer sol? Será que se eu dormir mais um pouco dá tempo? Será que se eu tivesse feito diferente teria dado certo? Será que nunca mais vou deitar com a cabeça tranquila? Será que cresci para sofrer? Será que saberei lidar com a eterna novidade do mundo para qual Pessoa disse termos nascido?

Será, será, será, serei. Sim, viverei a sofrer como um eterno inconformado a reclamar de tudo e de todos, da chuva e do sol, do frio e do calor, da vida e da morte, do amor e do desamor.

As fatais madrugadas acordado e observando estrelas e, analisando a lua mudar de lugar. Pela posição diferente, adivinhar de onde o sol virá. Estas madrugadas são para mim como facadas no peito, entram e estraçalham o que vier pela frente.

Odeio relatar em primeira pessoa, mas dessa vez é a única maneira de desabafar. Nem o humano mais completo seria capaz de compreender tanta perplexidade em meus olhos. Minhas lutas e minhas dores não comovem a ninguém e, nem sequer, acredito que sejam as piores.

O fato de ser cego todas as noites antes de dormir, machuca. Sentir-me imbecil quando lembro daquela história de amor, destrói a mim, mas deve ser a alegria de outros tantos, porém quem sou eu para estragar a alegria daqueles que enxergam a vida como uma viagem por meio de ervas e sintéticos.

Engulo e digiro como acho conveniente o que me dizem, e quase sempre, sofro de indigestão. E é indigesto pensar naquilo que não tenho mais e ainda não passou. As páginas parecem não mudar e triste seria não chorar, pois é o choro o único remédio. A dor renitente é capaz de ser mais libertadora do que sentir a brisa da manhã.

Levará muito tempo. Parece ser tarde mesmo sendo tão cedo. Solitário a reinar no mundo do óbvio. A eternidade presente. O relato se tornando crônica, a crônica virando poema e a dor se instalando, crônica.

Os finais nunca foram felizes. Nos esportes cansei de ser vice e no amor de ser substituído. E para um relato como esse não esperaria final melhor do que o da vida – nunca inteiramente feliz. Na verdade isso tudo me leva a acreditar que seja melhor adoecer e sentir a morte chegar distante do mundo urbanizado, do massacre e da falta de pudor.

Assim como Raul – o Seixas – indago em qual esquina a morte vai me beijar e com que rosto ela virá. Pensei até que não pudesse terminar esse copo de cerveja e o relato, o que talvez tivesse sido melhor.

Por Ederson Hising

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minutos de meu dia

Tenho mais dois minutos de café.
Nos quinze passados,
li sobre história da comunicação.
Quatro e nove,
Radiohead soa trágico,
cansado e enjoado,
algum barulho tira minha atenção.
Quatro e dez,
acabou o café,
tudo se movimenta ao meu redor,
eu, menor,
sou chamado
pra trocar a lâmpada,
havia queimado.
De minha mesa,
se olho à frente,
vejo apenas uma parede branca,
sem manchas,
ao contrario de minha alma.
O som de digitação,
Predomina assim que a música
para de tocar no meu fone.
Quatro e dezoito,
volto ao trabalho.

Por Ederson Hising

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Confissão


Eu lhe disse que tentaria. Dei meu máximo, mas não pude ser maior que toda sua construção. Meu juro de jamais desistir de você apagou-se, soterrado pela realidade infeliz, por sua persistência em querer tudo de forma errada. De coração, não entendo a covardia que lhe tomou. Medo de ser feliz? Medo do amor? Medo do que, pelo amor de Deus?
Você venceu.
Sem ar, desisti. O que me resta, contrariado, é destruí-la, pois não há como manter laços de amizade em um mar de enganações. É o que mais odeio em minha vivência, mas, tristemente, faço-lhe: admito que perdi.


Por Erick Gimenes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Das desilusões

Quando as festeiras madrugadas
dão lugar às tristes lembranças noturnas,
a cabeça dói e, a saudade traiçoeira e
taciturna,
corrói os resquícios de felicidade

Viagens mentais desequilibram o ser,
sozinho, vê-se o mundo verdadeiro,
conflitos existenciais afloram,
atingem,
como covardes tiros de morteiro

O coração vazio subitamente preenche
de tristes lindas recordações,
nítida sensação de impotência,
acomete,
com despudor e veemência

Quando as rotineiras manhãs
dão lugar ao frívolo amanhecer,
o peito apertado embarga a voz,
mudo,
segue-se o incrível caminho do entristecer.


Por Ederson Hising