quinta-feira, 30 de abril de 2009

Assassinato

Lembro-me bem.
Éramos unha e carne. Não nos desgrudávamos de forma alguma.
Ah, como aquela infância nos tornava brilhantes!
Todas aquelas peripécias, aquelas gargalhadas tresloucadas, aqueles momentos de solidão. A qualquer viver, lá estávamos nós, inseparáveis, dependentes.
Não foi fácil perdê-lo como perdi.
Era outono, o vento gelado nos estapeava, deixava-nos frios da mesma maneira que sua nascença, nos oceanos.
Fatídico dia em que ele me fitou, cumprimentou-me com a inocência estendida, com romantismo. Quão grande era a confiança dele num mundo perfeito.
Seu último olhar, piscou alegria para mim.
Foi o último suspiro, a ultima vez que vi meu irmão saudável, como sempre foi.
Não sei ao certo como ocorreu, mas vou lhes contar o que bordaram.
Dizem que eram cinco, meio rechonchudos, e que o renderam de forma desumana.
Ato fulminante.
Num piscar de olhos, os desgraçados já estavam impregnados, meu irmão, rendido.
Amedrontavam-lhe. Dia-a-dia, obrigado a se abrir, saturava-se com a presença daquele mau redondil.
Ficou mal. De tanto se abrir, fechou-se. Não tinha mais forças, não havia mais esperança.
Seu olhar fluorescente apagou-se dias depois.
O pior ainda havia de vir.
As autoridades, acionadas, bateram no peito com soberba exagerada e disseram que resolveriam o caso.
Inicialmente descrente, acabei por confiar. Fui burro, tão quanto os homens.
Desgovernados, entraram em cena e começaram o terror. Com facas, desferiram golpes em tudo que respirava e, como já se antevia, meu irmão fora atingido várias vezes.
Carnificina.
Sangue, medo, cegueira, sangue.
Sem palavras.
Até os dias de hoje decreto minha incessante tristeza com lágrimas de dor.
Não consigo ver mais o mundo sorrir, já não brilho esperança, já não enxergo adiante.
Sua morte fez nascer em mim a indignação que deixo aqui explícita com minha angústia.
Um tersol e um olho esquerdo.
Pequena marola do ruim afogando grandes mares do bom.
Que fato!
Eu, direito, estou incapaz de endireitar-me.
Que esperança há? Não sou mais nítido.
Assassinaram meu lado esquerdo, lá estava o coração.


Por Erick Gimenes

Um comentário:

  1. Já é a milésima vez que eu clico em postar um comentário, mas nada me vem à cabeça. Ora, se vamos falar de falta de nitidez, então postemos um comentário nada nítido! Que me remete a lembranças de prova sobre obturador, diafragma, que são comparados a nossa ocular. A mesma que te deixou na mão, sem querer. Com pequenos bujõezinhos invadindo a vista e deixando tudo embaçado. E me vem a cabeça sempre "Quando acordar, quer ver ele lá". Mas e agora, Erick, como vai ver? Se nada mais o vê. Foi o olho cego, ou o coração cego? Contente-se com o direito, caro. O direito que se faz de errado pra culpar o esquerdo por ter nascido canhoteiro, que culpa o tem? Ante um brilho ofuscado, do que forjado pelo poder que uma lente exerce para o ver o que não deveria. Sabe, prefiro não ver.

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