sábado, 25 de julho de 2009

Ao homem, com tristeza


Caros humanos,

Quero expressar-lhes a indignação (minha e de todos nós), que nos abate neste momento, pelo que se ouve ao nosso respeito. Temos apreço pela deferência que vocês conquistaram por todo o reino animal, suas capacidades e o domínio que impõe sobre o mundo, hoje. Isso é de bom tom, porquanto, algo não nos faz compreender o motivo para que tanta porcaria seja arremessada aos nossos focinhos, sem motivo algum, durante todos os últimos nasceres do Sol.

Buscamos, com a presente carta, pôr a falsa acusação que vocês estão fazendo a nós a panos limpos. Sob a perspectiva de nossa sociedade, representada aqui por sua instituição maior, a Organização dos Chiqueiros Unidos (OCU), elevamos este documento a comunicado oficial, emitido por nosso filo a toda humanidade.

Com esperança, cremos que a consagrada racionalidade de vocês, homens, vai lhes bater à porta da consciência, os dando o discernimento necessário para que pensem o quão grande é a injustiça que estão cometendo a nós.

Acredito que, a essa altura, já saibam o núcleo da prosa de tal epístola. Pois, estamos profundamente entristecidos frente às acusações, provindas dos caríssimos, que põem nossa classe como geradora de uma enfermidade que, sob nossa concepção, é advinda de vocês e sua sociedade, somente de vocês. Não há por que dar-nos algo às mãos, quando em nenhum momento isso foi de nosso pertence.

Entendam: essa não é somente a revolta do grande porco revolucionário e comunista, que sou. É o grunhido de gerações e gerações suínas, feridas pela faca mais afiada que adentrou nossas caixas torácicas. Fora a apunhalada do desrespeito, onde nossa moral foi apresuntada, e é isso que leva os seus olhos a lerem este manifesto, neste momento.

Sabemos que a “gripe suína” está afligindo toda a raça humana, por todas as regiões do planeta. Solidarizamos-nos e entendemos que é difícil, pomo-los no lugar de vocês. Caso necessite, até nos colocamos à disposição para ajuda. Propomos-nos lhes dar alimentação, e ainda cedemos nossa força física, se quiserem. Porém, em troca, queremos, de novo, reforçar nossa súplica.

Por piedade: façam-nos toicinho, torresmo, lingüiça. Usem-nos de cofre, de mascote. Podemos até ser-lhes amigos para qualquer ocasião - temos grande senso de humor. Mas, pela integração animal, não nos acusem do que não fizemos. Isso nos faz tristes.
O vírus, amigos homens, não veio de nós. Posso garantir-lhes com a certeza de que toda a assistência aos que necessitam de cuidado suíno está sendo dada. E mais: pelo que sei, não há porcos com tal doença, em lugar algum.

Arrisco-me a dizer que entre todas as maçãs que nos colocaram à boca, essa foi a maior e mais dolorida, pois não só nos calou as cordas vocais, mas também fez silêncio à felicidade de nossas almas.

Temo que o vírus que os atingiu seja outro, que não o H1N1. Temo que, mais grave, o vírus da prepotência os tenha atingido. Suplico, humanos, que reflitam sobre o que se passa, e respeitem todos os animais e a natureza, pois estes necessitam de vocês, e vocês deles. Ao que me lembro, nunca os cachorros os acusaram de ter-lhes transmitido carrapato, nem os bois foram à imprensa, indignados, se queixar de que o homem o transmitiu a febre aftosa.

Escrevo-lhes com patas respeitosas e tristonhas. Espero que possam ser mais coerentes em suas colocações, mais respeitosos. E, mais, espero que se curem para sempre do mal que os atinge, em especial o mais perigoso: o sentimento virótico da arrogância humana, que pode os matar para sempre.



Por Erick Gimenes

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Os doce domingo de vovó


À tarde de domingo, mais uma das saudosas reuniões familiares, e, de novo, eu ignorara as suculentas picanhas à espera do que se ofereceria depois, ao meu atônito estômago. Tentava enganá-lo com as balas de hortelã - que comprávamos aos sacos, no bar de seo Raimundo -, mas ele prosseguia fazendo escândalo, em meio a todos. Há de se convir que tinham fundamento os histéricos gritos de meu sistema digestivo. Eles clamavam pelo doce mais doce que já vi em minha vivência: o doce de abóbora de vó Nida.

É trazê-lo ao meu pensamento e minhas glândulas salivares já começam a se alvoroçar. Como pode o ser humano capacitar-se a ponto de fazer tal obra? Até hoje, ninguém soube explicar, racionalmente, que poder tomava as mãos de vovó.

Devo ser mesmo dom, só pode. Ao fazê-lo, entre o bater da colher de pau e os contos da juventude, nos explicava, com humildade única, que havia aprendido a receita sozinha, e que era muito simples. Eu tinha convicção que era verdade, pois para ela, de fato, fazer o doce era tão banal quanto a produção de gelos.

Não posso deixar de citar a divina macarronada a molho de tomate que também era servida, mais saborosa que as vendidas nos chiques restaurantes italianos, e do cafezinho meticulosamente açucarado, também nascente no talento excepcional da maior cozinheira que conheci.

Vó Nida fora merendeira de colégio, em tempos que meu pai não planejava nada além de uma bicicleta nova. Fico imaginando quão privilegiados eram os alunos que desfrutavam de sua divindade, sem pagar um tostão. Com certeza, não lhes vinha à consciência que comiam a comida dos céus. Fosse minha época, e os exercícios escolares seriam somente com talheres.

Mamãe arriscou-se. As sete tias também ousaram fazer igual, além das quinze primas. Nunca chegaram ao menos perto – e acredito que nunca chegarão. Pessoas capazes de fazer o doce de abóbora igual ao de vovó são fenômenos que só acontecem a cada vinte mil verões.

A saborosa massa alaranjada de meus domingos fora o maior sustento de minha fase crescimento. Semana à semana, engolia pires cheios do primor, cada vez maiores. A alimentação não-balanceada também fez crescer meu intelecto; não havia como não absorver ao menos um pouco do conhecimento que era usado na formosa construção.

Vovó Nida está amadurecendo; justo quando o doce ficava cada vez melhor. Infelizmente, a idade também alcança os gênios. Trabalhara nas lavouras de café, quando criança - muito criança - , e isso afetou sua coluna. Os problemas só vieram manifestar-se agora, nos dias mais açucarados de sua vida.

Atualmente, as abóboras estão intactas à horta, com saudade das mãos que lhes faziam tão bem. Também não tenho mais comparecido aos churrascos de final de semana, que dificilmente acontecem. Infelizmente, os doces domingos parecem ter acabados.

Espero que os problemas de vovó passem, e que volte à cozinha em breve. Estão sendo amargos os dias sem sua maior criação. Quem sabe os encontros não estão dando as caras justamente por sentirem a falta do quitute.

Aquele doce de abóbora certamente marcara minha vida, pois era feito com o açúcar da simplicidade, e esse é seu maior valor. Ele me trouxe ensinos, me fez nutrição por anos; porquanto, mais que isso, fez crescer o amor que sinto por uma das pessoas mais queridas de minha vida, o doce de minha avó.


Por Erick Gimenes

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Poema sincero

o nada, o nunca, o erro
e o viver,
nos consome

consumidos,
nada somos, nunca seremos, sempre erramos
e não vivemos

nada, nunca, errantes,
meio vivos
e consumidos

pelo não ser,
pelo não ter,
pelo jeito contraditório
de viver.

Por Ederson Hising

domingo, 19 de julho de 2009

O mundo de preocupações, com Pingo


Nos últimos dias, tenho me preocupado com Pingo e o mundo. Talvez eles estejam ficando velhos demais, talvez a adultice me alcançou. Para o que me ocorre, não há certezas. Com convicção só digo que as rugas estão aparecendo por conta da observação que tenho feito deles, dia a dia. Cresci com os dois, os admirando, e não me faz bem ver o atual estado deplorável em que se encontram. Meu cachorro está cabisbaixo, triste, com o olhar marcado a apagar, preso em sua própria cela existencial. O mundo, também.

Estão entregues ao destino. Esperando que ele venha, com uma grande pá moral e os recolha. Não gosto nem de pensar. O mundo quem me criou e, eu, por conseguinte, criei Pingo. Éramos muito felizes juntos e, sinceramente, não entendo por que passam por situação tão difícil. Não entendo o motivo para estarem se perdendo de forma cada vez maior. Busco entender o que foi feito errado.

Será o alimento? De fato, sobras de arroz e feijão, bifes velhos e sorvete não estão fazendo bem ao cão. Também não acredito que crimes ao molho pardo, pedofilia e salada de corrupção estejam nutrindo o mundo de forma saudável. O que me chateia é que estou totalmente atado ao que se passa. Não tenho tempo hábil para os dar cuidado. Meu pai é quem dá de comer ao cachorro e, ao mundo, são os homens que passam, que jogam o que têm à mão, em sua jaula.

Tristemente, os vejo decair, sem achar alternativas para os salvar. Estou demais atarefado. Queria lhes dar as melhores condições para que vivessem, até o fim da vida, algo intenso e recompensador. Mas as preocupações humanas estão me levando à falha. Ainda não discirno os motivos que trazem o problema. Como disse, talvez isso seja somente produção de minha precoce alma adulta.

Porquanto, pensando nisso com mais afinco, pode ser este o centro da questão. Mundo e Pingo gostam de crianças, e suas brincadeiras. Gostam do espírito de pureza, de gargalhar em tom maior, de sujar-se na rua, e isso não os posso dar mais. Minha alma infantil decidiu me abandonar, anos atrás, com o passado e as responsabilidades de um possível grande homem – como mamãe queria.

Acredito que até hoje, velhos, eles respiram aqueles ares de infância. Ares felizes como os de quando os deixava soltos. Sempre hesitei ao deixar Pingo ir à rua, pois os cachorros grandes o atacavam e ele não sabia se defender. Por coincidência, é o que acontecia com o mundo. Quando o deixava sem restrições, subitamente vinham os homens com maior poder e o machucavam. Não pude mais deixá-los em liberdade, pois a grandeza não sabe o que faz.

Eles estão doentes. São partes de mim, atrofiadas, à espera da inevitável amputação de meu corpo vital. Pelo que sinto, não há mais volta. Pingo e o mundo já abateram-se demais, construíram infelicidade e ócio, e não há mais como demolir tal obra. A depressão os abocanha, nos dias de hoje.

Estou apenas começando minha trajetória, e sinto que estou perdendo dois pilares essenciais em minha vida. A casa será vazia sem Pingo. Eu serei vazio sem o mundo. Talvez inventem alguma vacina ou cura para a doença de meus maiores parceiros, talvez tudo acabe e eles possam nasçam de novo, espontâneos, felizes, inocentes. Não tenho muitas esperanças, mas, no fundo, ainda acredito na hipótese.

No mais, prometo que tentarei trocar-lhes a alimentação. Porém, acho que não há mais tempo. Tudo já foi estraçalhado pela irresponsabilidade humana e, infelizmente, admito: Pingo e o mundo estão morrendo.



Por Erick Gimenes

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Filosofia de boteco

Quinta-feira, seis e pouco da tarde, os dois amigos rumam sentido a qualquer boteco de esquina. Para começar, nada melhor que uma cerveja bem gelada. Como dizem os apreciadores diários de tal bebida, os rapazes estavam, apenas, “molhando as palavras”. O bate papo ainda estava comum, até que, garrafas depois, a conversa tornou-se aquele famoso papo de boteco.

Todo brasileiro que se preze, algum dia, já discorreu acerca de sua filosofia de vida sentado à mesa de algum botequim. Era o que os dois moços faziam. Entre cerveja e outra, e, espeto e outro, a conversa engrenava e tomava rumos cada vez mais filosóficos. Jovens, mas preocupados com o futuro, discursavam sobre os medos e anseios profissionais e de vida.

Célebres seres humanos condenados ao esquecimento, a cada copo de cerveja, viam a vida com olhos mais tristes e um tanto quanto saudosista. Sabedores do tudo e do nada, viam carros passando pela avenida e percebiam, exacerbadamente, como era no mínimo ridículo, o cotidiano.

De acordo com eles, a vida meus caros, é trágica. Razões sobravam para os dois moços partilharem da mesma opinião. Em determinadas ocasiões, as filosofias de boteco, são compatíveis em mais de uma mente insana. Os amigos conversaram também sobre as mulheres. Essas atormentadoras de pensamentos e causadoras de infelicidade, os fizeram gastar alguns copos da bebida fermentada, feita da cevada, do lúpulo e d´outros cereais.

Escafandristas do pensamento alheio, algumas pautas para a construção de filosofias de bar são retiradas do silêncio da mesa em que se está sentado. Pois é nessa hora, que a vida dos outros, assim, sem querer, penetra nos ouvidos de quem viaja por perto. Foi dessa forma que a visão sobre as mulheres mudou por alguns instantes, afinal, a loira conversando sobre o namorado ao lado e a morena passando à frente, deixavam o olhar sobre a vida mais ameno e um tanto libidinoso.

Depois de horas ali sentados, à beira da rua, cheirando churrasco e com bafo de álcool, os amigos se esgotaram. O levantar da cadeira pareceu mais uma passagem de volta ao mundo real. Depois que cada um construiu a carreira e criou os filhos de umas três maneiras diferentes, partiram de lá para a sequência de suas vidas. Fazendo o que todo mundo faz; sendo o que todo mundo é; vazios como todos são.


Por Ederson Hising

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Me chame a biciclância



Ao cruzar o sinal vermelho, um motociclista, arrebatado por um carro a 70 Km/h, em média, bate com a cabeça ao chão, após ser arremessado a 15 metros de distância. Os poucos espectadores desesperam-se, em busca de ajuda repentina. Logo, o senhor que guiava o veículo, aflito, toma o celular à mão e contata o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, para que os primeiros socorros sejam prestados.

Passa-se dez minutos; se ouve a sirene e, para o espanto de todos, vê-se um pequeno giroflex, menor que o comum, pendurado sobre uma moto 250 cilindradas. Pois a nova tendência chegara também à saúde pública.

Após a regulamentação de serviços como mototáxi, motoboy e motovigia, o Ministério da Saúde também resolveu aderir à moda sobre duas rodas, investindo R$ 6 milhões em 400 motocicletas, possivelmente usadas para o auxílio nas emergências. São as “motolâncias”.

Ao ler essa notícia, assustei-me. As estatísticas logo me vieram à cabeça - que tinha os olhos arregalados -, me fazendo lembrar que os acidentes mais graves e freqüentes acontecem justamente com as motocicletas. Tive preocupação. Serão seguras tais unidades? Elas serão imunes ao perigo, mesmo obrigadas a andar em alta velocidade? Na dúvida, prefiro lançar-lhes minha ideia, bem mais conveniente: as “biciclâncias”.

As biciclâncias, veículos paramentados para oferecer ao paciente maior conforto nas ocorrências de emergência, terão todos os aparatos comuns à ambulâncias europeias. Nelas, haverá cilindro de oxigênio, baú de carga, colares cervicais, desfibriladores externos, luvas estéreis, ataduras, compressas, seringas e cateteres e uma televisão de plasma, todos à garupa.

As bicicletas, em si, também serão de grande qualidade, oferecendo ao necessitado selim revestido a silicone, luvas de borracha, retrovisor - dos dois lados – e, o essencial, sirene a ar. De fato, o equipamento será de ponta.

À minha precisão, mais R$ 6 milhões, e teremos mais mountain-bikes que nas ruas de Pequim, atuando em prol da saúde. As vantagens, caro futuro paciente, serão inimagináveis.

Pense comigo.

A cada mês, com a economia de combustível, poderemos adquirir mais dez veículos, abastando o país inteiro. Além do mais, acariciaremos a natureza com a preservação do ar, cada vez mais puro. As árvores, de joelho, agradecerão a nova proposta.
Os pilotos-socorristas passarão por um criterioso processo de seleção. A ideia é garimpar sujeitos trabalhadores da matina, pós-graduados em ciclismo trabalhista, e os inserir medicina à cabeça, por osmose. Com certeza, serão melhores especialistas em saúde do que os japoneses são em mecatrônica.

Mas, me deixe chegar ao ponto principal: a segurança. Garanto-lhe que não existirá, nos próximos cem anos, meio de transporte mais seguro que as biciclâncias. Os capacetes, que também têm função de colares cervicais, são o primeiro triunfo do moderno sistema de segurança que ela oferecerá. Os airbags e apoios laterais infláveis darão o restante do apoio necessário. Em último destino, caso ocorra algum acidente, fique sosegado - cientificamente, não existe chance de danos. Basta levantar-se, estapear a poeira dos joelhos, e tomar-te o rumo. Maravilhoso!

Pensando com mais apreço, acho que vou levar a ideia adiante. Me candidatarei à próxima eleição, ou, no mínimo, pechincharei algum cargo para meus tios, que trabalham com isso. Prometo defender a causa com força, afinal, bicicletas ainda são ótima alternativa para quem anda a pé, como a saúde no Brasil.



Por Erick Gimenes

terça-feira, 14 de julho de 2009

Alucinações do velho Rock



Em meu relógio, três e dez da manhã. Cá estou eu, sobre o frio balcão de mogno, sem forças para mais nenhum movimento, além do que leva o copo à minha boca. Ao que me lembro, estou no grandioso Bar do Rock. No mais, apenas recordo-me vagamente do sujeito barba-rala que me ciciou, três copos de cerveja atrás, acerca do festejo do proprietário deste estabelecimento, ontem.

Acredito que se referia ao aniversário do velho Rock, senhor que faz parte de minha vida, há bastante tempo. Desde a molequice, aprendi a admirá-lo, talvez por ser deveras excêntrico, como eu, diferente dos que nasceram em sua geração. Em meus primeiros anos, seo Rock sempre falara comigo, todos os dias, a todo o momento que podia. À memória, mesmo abatida, emergem as ocasiões em que eu deixava as lições ou as travessuras à troca de ouvi-lo, ao menos por instantes. Mesmo atordoado, essas lembranças me trazem alegria. Não há explicação, mas, de seu jeito, ele falava ao meu coração de forma direta e profunda.

A cargo de detalhe: nunca soube-se ao certo a real idade do velho.

A gritaria, ensurdecedora aos homens que habitam o local neste momento, se faz muda enquanto meus olhos turvos observam a estrutura presente. Quanta história ali, reunida às mesmas paredes! A trajetória de Rock e sua obra é, no mínimo, fascinante.
Os mais antigos bordam que ele nascera na periferia norte-americana, entre os negros e a marginalidade. Ainda dizem que o crescimento dele foi avassalador, inédito. Ali, Rock se tornou grande revolucionário, e a partir daí passou a impressionar não mais no país de origem, mas em todo o mundo.

Chegara ao Brasil na década de 50, e fora recebido com honras de grande conquistador. De fato, era um líder, e aqui também mudou gerações. Alterou formas de expressão, vestimentas, e principalmente a maneira de pensar. Em pouco tempo, era tão reconhecido nacionalmente quanto Getúlio Dornelles Vargas.
Queira perdoar-me, mas o chacoalhar de meu cérebro não me deixa avançar mais que isso historicamente. Penso em deleitar-me no fervor desse bar, que, por ver, está abastado de pessoas interessantes.

Fitando os bancos giratórios que estão enfileirados ao meu lado, reconheço alguns rostos, alguns gestos. Realmente, não devo estar bem. Ouço sons que já me emocionaram antes. Talvez já tenha visto aquele balançar de cabeça, daquele homem. Será tudo isso real?

Não, não posso acreditar. A duas mesas, Jimmy Hendrix toca sua guitarra, exclamando solos enlouquecedores, provindos de uma alma negra. Excepcional! Antes, Elvis acabara de passar por mim, cumprimentando-me com um simpático tapinha às costas, antes de ir ao toalete. Sem dúvida, nesta noite, o Bar do Rock está surreal.

Pois sinto a harmonia dos Peppers tomar estrutura em meu peito. Eles estão aqui, posso dizer com convicção. Jimmy Page e Robert Plant também devem ter vindo; ouvi notas de “Starway to Heaven”, de passagem. Aquele bigode não é outro senão o de Frank Zappa. Até eles! Até os Beatles estão ali, comportados à mesa quadrada, onde só cabem quatro.

Minha cabeça dói. Todos os riffies de guitarras estão misturando-se em minha mente, as vozes, os gritos. Tudo está girando. Me vejo muito mal.

Estou ao chão. Na queda, acabei por bater a cabeça. Algumas coisas me vêm à tona, com muita força. Pareço totalmente alucinado, e sou, de fato, louco. Sou um velho bêbado, eu sou o Rock.


*Crônica publicada no jornal Hoje Notícias, de Maringá, a 15 de julho de 2009.


Por Erick Gimenes

sábado, 11 de julho de 2009

Destoa

Desfocado do real
e, mesmo que fosse
sincero,
Seria mais um banal
sem nenhum esmero,
Vagando por emoções,
MPB e rock and roll,
Balançando na rede
distante do próprio show,
Travado, desencontrado
voz embargada
de sentimentos contrários,
O mundo lua
atrai, distrai,
Pancada traiçoeira,
Dói, destrói,
Descrente de si
exímio torturador,
Como mero espectador
assiste a vida destoar,
Com álcool e ilícitas
faz a mente
girar, girar, girar.

Por Ederson Hising

domingo, 5 de julho de 2009

Todas as minhas lutas, de ontem a amanhã


Sentado em minha cadeira-balanço, meço o quão encantador é ser pai. Uma vértebra do jornal escangalhado está à frente dos meus olhos, aos meus braços, mas não estou conseguindo ouvir as palavras que ele insiste em me dizer. Estou mais além, em meu passado. Sempre que volto para meus gloriosos anos, a afirmação logo me estapeia a cabeça: viver o incrível, de fato, não é fácil. Pelejei muito até chegar aqui, neste lindo presente, do qual meu filhos desfrutam. Mas aprendi a gostar dessa luta, pois é nela em que me tornei vencedor insaciável.

Sempre fui revolucionário, idealista e, modéstia à parte, muito bonito. Era fácil gostar de mim. Eu falava com todos, sobre tudo; alfinetava os políticos com fúria, mostrava ter opinião em todas polêmicas - e conquistava adeptos. Ninguém mais conseguira viver sem mim. Todos me amavam de verdade. Eu gritava o que eles queriam gritar, e por isso era dessa forma.

Logo, me vi grande. Comecei a formar ideias com consciência espantosa, virei celebridade mundo afora. Foi a partir daí que vi a habitação por metro quadrado em meu lar crescer mais que em Pequim. Tive poucos amores, mas muitos e muitos filhos. Acabei prejudicado pela genética. Grande parte deles bombeava o coração à rebeldia, como eu, e por isso, espalharam-se pelo mundo, deixando-me de lado. Comigo, sobraram oito dos mais jovens.

Vou lhes contar um pouco sobre eles.

Começarei pelos mais novos. Meus três molequinhos, Bruno, William e Ederson são inseparáveis, inclusive nas paixões. Nunca havia visto tanto apego, como os três têm por futebol. Nas refeições, o tempero deles é algo como molho de discussões táticas. Passa o Ronaldo, por favor?

Juntas também estão sempre Gesli e Camila, duas alucinadas por música. Quando preciso achá-las, basta uma visita ao quarto rosa, que fiz para as meninas, que lá estarão elas, sempre conversando alto e com fones atarracados nos ouvidos.

Paula fala mais alto ainda, sozinha. Paulinha, como a chamo, tem estilo próprio e suas peculiares loucuras. Mesmo na pré-adolescência, já tem saudosismo como modo de vida. Sangue do meu sangue.

Elton e Anna, os mais velhos, vivem na rua, cada um com seus amigos e seu jeito. Tom é mais observador, age com racionalidade e serenidade. Anna gosta de falar, como gosta de falar! De qualquer modo, ambos se sentem bem ao relacionar-se com a sociedade e descobrir coisas novas. De formas diferentes, como são, eles são bastante curiosos e creio que isso os faz crescer como estão crescendo.

Nos últimos dias, tenho me preocupado com meus filhos. Estou envelhecendo, muitos dizem que não tenho futuro longo e, sinceramente, não sei quem vai acolhe-los quando eu partir.

De novo, estou em meu jornal. Já não consigo discernir se estou no presente das notícias, em meu passado ou no futuro dos meus filhos. Meus próximos dias são incertos, mas, acredite, não vou mudar, nem desistir. Fiz minha história com brilhantismo e, nela, lutar sempre foi matéria prima.


*Crônica escrita para o jornal experimental Matéria Prima.


Por Erick Gimenes

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Desencontrado

- Me vê um café e um salgado, por favor, disse o rapaz segurando uma nota de R$ 5.

Cansado, ele seguia para o único momento de refeição no dia. Consumido pelas horas e pelo estresse do trabalho sentou-se num banco qualquer e deleitou-se com o salgado que tinha recheio de carne moída barata. O café, companheiro de longa data, mantinha os olhos – do moço de barba mal feita –, abertos. Camisa amarrotada, blusa cheirando cigarro, calça surrada e sapato sujo. Sim, o dia além de tudo, ainda rendeu-lhe os itens descritos.

Rapidamente, bebeu o último gole de café e passou a blusa limpando a boca. Levantou-se com as costas tortas, empunhou a mochila pesada e seguiu o caminho até o ponto de ônibus. Chegando lá, cumprimentou com a cabeça um senhor e encostou-se no primeiro pilar que encontrou pela frente.

Com dez minutos de atraso o metropolitano chegou. O moço entrou e sentou-se no primeiro lugar que viu pela frente. Colocou os fones de ouvido, pegou um livro, mas nem a música, muito menos a literatura prendia a atenção do jovem. Havia algo de estranho.

Ao descer do ônibus, acendeu o ultimo cigarro que tinha no bolso e caminhou, sem rumo. Pensava nos filmes que ainda não tinha visto, nos livros que não havia lido e também naqueles que sonhava em escrever. Cantarolando algum rock progressivo, correu.

Quarteirões, avenidas, travessas, praças, viadutos. Correu. Sentiu calor na noite de frio. Suou tomando vento gelado. Correu. Queria fugir de si mesmo, mas era em vão. Tinha medo de estar acompanhado pela consciência, pois ela traria consigo a razão.

Desmotivado. Esgotado da racionalidade hipócrita do cotidiano. Parou. Gritou para quem quisesse ouvir. Apenas gritou. Um grito atordoado, desencontrado. Cansou. Dormiu. É, ali mesmo, no chão da calçada. Com o peito doendo e uma lágrima sincera escorrendo pelo canto do olho.

Acordou. Sozinho partiu com a feição abatida. Sem mais a fazer, mesmo jovem, cansou-se da vida.


Por Ederson Hising

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem o rei, os impérios da música ruirão


Ainda não me desce à garganta, mas Michael Jackson morreu. Em casa, o astro mais reluzente da constelação musical nos deixou, frágil, triste, sozinho. Seu coração não agüentou a dubiedade do sangue corrente, mistura de extremo talento e perdição. Confesso que é difícil, quase que inimaginável, eu, articulista e fã, não escrever com o coração neste momento. Que me perdoem os racionais ortodoxos, mas Michael era só coração; em sua homenagem, também serei.

Escrevo a batimentos, sim. Ato falho jornalístico. Porquanto, sinceramente, não entendo os que escrevem e falam com a soberba, com a superficialidade. Não compreendo os que julgam-se sabedores do que não sabem. Digo isto por que li mais absurdos sobre Jackson do que a tiragem do disco “Thriller”. Detalhes e revoltas não cabem na ocasião. Por respeito, quero falar coisas boas.

O “rei do pop” não obteve hegemonia somente em terras próprias. Michael era conquistador. Comandou revoluções, abocanhou todos os territórios musicais, uniu gregos e troianos e foi aclamado como o maior. Mesmo assim, alguns bobos da corte ainda insistem em relevar somente os deslizes que cometeu, ignorando a grandiosa obra que construiu.

Gênio, sempre viveu sob turbulências, afogado em psicoses e medos. Nunca foi feliz. A opressão e o autoritarismo do pai, Joe Jackson, que o espancava física e mentalmente, não o deixou saborear a infância. Pelo restante da vida, tentou resgatá-la, mas, infelizmente, a alegria não quis dançar com Michael.

Jackson foi o artista que mais vendeu discos na história da música - mais de 200 milhões de cópias - e tinha todos os atributos para tornar-se um dos maiores ícones da música, como, de fato, se tornou. No começo da carreira, com o Jackson 5 - grupo formado por ele e os irmãos - cantou a mais doce voz já ouvida ao mundo, aos cinco anos. Deixou todos boquiabertos; nunca havia se visto afinação tão perfeita. Cresceu e dançou como nenhum outro ser humano havia dançado, arquitetando o passo de dança mais fabuloso e conhecido da história, o “Moonwalker”. Ainda, foi grande produtor e compositor, além de precursor dos videoclipes e shows espetaculares, carregados de encanto. Foi único, genial.

Repito: Não acredito, mas o maior artista de todos os tempos foi-se. Sucumbiu a tão grande talento, esquizofrenicamente maior que a estrutura emocional e psicológica que o sustentava como humano – se realmente era. A magia não coube aos ombros. Michael Jackson foi e sempre será lenda, mas morreu sem conseguir realizar o sonho de ser homem, somente homem.

A indústria musical, reino de Michael, passa por grande fragmentação, como o mundo todo, e não será capaz de produzir outra jóia-rara como a que acaba de se perder. Talvez Michael Jackson seja o último a sentar-se no trono dos acordes, deixando um vazio impreenchível. Ele foi fora de série, foi mito, foi o rei mais extraordinário que vi. Para sempre a arte chorará lágrimas melódicas pela perda de seu maior astro, que subiu até o inalcançável alto dos céus, foi apedrejado, e morreu jogado ao chão, sem luz e fora de órbita.


Por Erick Gimenes