
Caros humanos,
Quero expressar-lhes a indignação (minha e de todos nós), que nos abate neste momento, pelo que se ouve ao nosso respeito. Temos apreço pela deferência que vocês conquistaram por todo o reino animal, suas capacidades e o domínio que impõe sobre o mundo, hoje. Isso é de bom tom, porquanto, algo não nos faz compreender o motivo para que tanta porcaria seja arremessada aos nossos focinhos, sem motivo algum, durante todos os últimos nasceres do Sol.
Buscamos, com a presente carta, pôr a falsa acusação que vocês estão fazendo a nós a panos limpos. Sob a perspectiva de nossa sociedade, representada aqui por sua instituição maior, a Organização dos Chiqueiros Unidos (OCU), elevamos este documento a comunicado oficial, emitido por nosso filo a toda humanidade.
Com esperança, cremos que a consagrada racionalidade de vocês, homens, vai lhes bater à porta da consciência, os dando o discernimento necessário para que pensem o quão grande é a injustiça que estão cometendo a nós.
Acredito que, a essa altura, já saibam o núcleo da prosa de tal epístola. Pois, estamos profundamente entristecidos frente às acusações, provindas dos caríssimos, que põem nossa classe como geradora de uma enfermidade que, sob nossa concepção, é advinda de vocês e sua sociedade, somente de vocês. Não há por que dar-nos algo às mãos, quando em nenhum momento isso foi de nosso pertence.
Entendam: essa não é somente a revolta do grande porco revolucionário e comunista, que sou. É o grunhido de gerações e gerações suínas, feridas pela faca mais afiada que adentrou nossas caixas torácicas. Fora a apunhalada do desrespeito, onde nossa moral foi apresuntada, e é isso que leva os seus olhos a lerem este manifesto, neste momento.
Sabemos que a “gripe suína” está afligindo toda a raça humana, por todas as regiões do planeta. Solidarizamos-nos e entendemos que é difícil, pomo-los no lugar de vocês. Caso necessite, até nos colocamos à disposição para ajuda. Propomos-nos lhes dar alimentação, e ainda cedemos nossa força física, se quiserem. Porém, em troca, queremos, de novo, reforçar nossa súplica.
Por piedade: façam-nos toicinho, torresmo, lingüiça. Usem-nos de cofre, de mascote. Podemos até ser-lhes amigos para qualquer ocasião - temos grande senso de humor. Mas, pela integração animal, não nos acusem do que não fizemos. Isso nos faz tristes.
O vírus, amigos homens, não veio de nós. Posso garantir-lhes com a certeza de que toda a assistência aos que necessitam de cuidado suíno está sendo dada. E mais: pelo que sei, não há porcos com tal doença, em lugar algum.
Arrisco-me a dizer que entre todas as maçãs que nos colocaram à boca, essa foi a maior e mais dolorida, pois não só nos calou as cordas vocais, mas também fez silêncio à felicidade de nossas almas.
Temo que o vírus que os atingiu seja outro, que não o H1N1. Temo que, mais grave, o vírus da prepotência os tenha atingido. Suplico, humanos, que reflitam sobre o que se passa, e respeitem todos os animais e a natureza, pois estes necessitam de vocês, e vocês deles. Ao que me lembro, nunca os cachorros os acusaram de ter-lhes transmitido carrapato, nem os bois foram à imprensa, indignados, se queixar de que o homem o transmitiu a febre aftosa.
Escrevo-lhes com patas respeitosas e tristonhas. Espero que possam ser mais coerentes em suas colocações, mais respeitosos. E, mais, espero que se curem para sempre do mal que os atinge, em especial o mais perigoso: o sentimento virótico da arrogância humana, que pode os matar para sempre.
Por Erick Gimenes





