
Sentado em minha cadeira-balanço, meço o quão encantador é ser pai. Uma vértebra do jornal escangalhado está à frente dos meus olhos, aos meus braços, mas não estou conseguindo ouvir as palavras que ele insiste em me dizer. Estou mais além, em meu passado. Sempre que volto para meus gloriosos anos, a afirmação logo me estapeia a cabeça: viver o incrível, de fato, não é fácil. Pelejei muito até chegar aqui, neste lindo presente, do qual meu filhos desfrutam. Mas aprendi a gostar dessa luta, pois é nela em que me tornei vencedor insaciável.
Sempre fui revolucionário, idealista e, modéstia à parte, muito bonito. Era fácil gostar de mim. Eu falava com todos, sobre tudo; alfinetava os políticos com fúria, mostrava ter opinião em todas polêmicas - e conquistava adeptos. Ninguém mais conseguira viver sem mim. Todos me amavam de verdade. Eu gritava o que eles queriam gritar, e por isso era dessa forma.
Logo, me vi grande. Comecei a formar ideias com consciência espantosa, virei celebridade mundo afora. Foi a partir daí que vi a habitação por metro quadrado em meu lar crescer mais que em Pequim. Tive poucos amores, mas muitos e muitos filhos. Acabei prejudicado pela genética. Grande parte deles bombeava o coração à rebeldia, como eu, e por isso, espalharam-se pelo mundo, deixando-me de lado. Comigo, sobraram oito dos mais jovens.
Vou lhes contar um pouco sobre eles.
Começarei pelos mais novos. Meus três molequinhos, Bruno, William e Ederson são inseparáveis, inclusive nas paixões. Nunca havia visto tanto apego, como os três têm por futebol. Nas refeições, o tempero deles é algo como molho de discussões táticas. Passa o Ronaldo, por favor?
Juntas também estão sempre Gesli e Camila, duas alucinadas por música. Quando preciso achá-las, basta uma visita ao quarto rosa, que fiz para as meninas, que lá estarão elas, sempre conversando alto e com fones atarracados nos ouvidos.
Paula fala mais alto ainda, sozinha. Paulinha, como a chamo, tem estilo próprio e suas peculiares loucuras. Mesmo na pré-adolescência, já tem saudosismo como modo de vida. Sangue do meu sangue.
Elton e Anna, os mais velhos, vivem na rua, cada um com seus amigos e seu jeito. Tom é mais observador, age com racionalidade e serenidade. Anna gosta de falar, como gosta de falar! De qualquer modo, ambos se sentem bem ao relacionar-se com a sociedade e descobrir coisas novas. De formas diferentes, como são, eles são bastante curiosos e creio que isso os faz crescer como estão crescendo.
Nos últimos dias, tenho me preocupado com meus filhos. Estou envelhecendo, muitos dizem que não tenho futuro longo e, sinceramente, não sei quem vai acolhe-los quando eu partir.
De novo, estou em meu jornal. Já não consigo discernir se estou no presente das notícias, em meu passado ou no futuro dos meus filhos. Meus próximos dias são incertos, mas, acredite, não vou mudar, nem desistir. Fiz minha história com brilhantismo e, nela, lutar sempre foi matéria prima.
*Crônica escrita para o jornal experimental Matéria Prima.
Por Erick Gimenes
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