
Em meu relógio, três e dez da manhã. Cá estou eu, sobre o frio balcão de mogno, sem forças para mais nenhum movimento, além do que leva o copo à minha boca. Ao que me lembro, estou no grandioso Bar do Rock. No mais, apenas recordo-me vagamente do sujeito barba-rala que me ciciou, três copos de cerveja atrás, acerca do festejo do proprietário deste estabelecimento, ontem.
Acredito que se referia ao aniversário do velho Rock, senhor que faz parte de minha vida, há bastante tempo. Desde a molequice, aprendi a admirá-lo, talvez por ser deveras excêntrico, como eu, diferente dos que nasceram em sua geração. Em meus primeiros anos, seo Rock sempre falara comigo, todos os dias, a todo o momento que podia. À memória, mesmo abatida, emergem as ocasiões em que eu deixava as lições ou as travessuras à troca de ouvi-lo, ao menos por instantes. Mesmo atordoado, essas lembranças me trazem alegria. Não há explicação, mas, de seu jeito, ele falava ao meu coração de forma direta e profunda.
A cargo de detalhe: nunca soube-se ao certo a real idade do velho.
A gritaria, ensurdecedora aos homens que habitam o local neste momento, se faz muda enquanto meus olhos turvos observam a estrutura presente. Quanta história ali, reunida às mesmas paredes! A trajetória de Rock e sua obra é, no mínimo, fascinante.
Os mais antigos bordam que ele nascera na periferia norte-americana, entre os negros e a marginalidade. Ainda dizem que o crescimento dele foi avassalador, inédito. Ali, Rock se tornou grande revolucionário, e a partir daí passou a impressionar não mais no país de origem, mas em todo o mundo.
Chegara ao Brasil na década de 50, e fora recebido com honras de grande conquistador. De fato, era um líder, e aqui também mudou gerações. Alterou formas de expressão, vestimentas, e principalmente a maneira de pensar. Em pouco tempo, era tão reconhecido nacionalmente quanto Getúlio Dornelles Vargas.
Queira perdoar-me, mas o chacoalhar de meu cérebro não me deixa avançar mais que isso historicamente. Penso em deleitar-me no fervor desse bar, que, por ver, está abastado de pessoas interessantes.
Fitando os bancos giratórios que estão enfileirados ao meu lado, reconheço alguns rostos, alguns gestos. Realmente, não devo estar bem. Ouço sons que já me emocionaram antes. Talvez já tenha visto aquele balançar de cabeça, daquele homem. Será tudo isso real?
Não, não posso acreditar. A duas mesas, Jimmy Hendrix toca sua guitarra, exclamando solos enlouquecedores, provindos de uma alma negra. Excepcional! Antes, Elvis acabara de passar por mim, cumprimentando-me com um simpático tapinha às costas, antes de ir ao toalete. Sem dúvida, nesta noite, o Bar do Rock está surreal.
Pois sinto a harmonia dos Peppers tomar estrutura em meu peito. Eles estão aqui, posso dizer com convicção. Jimmy Page e Robert Plant também devem ter vindo; ouvi notas de “Starway to Heaven”, de passagem. Aquele bigode não é outro senão o de Frank Zappa. Até eles! Até os Beatles estão ali, comportados à mesa quadrada, onde só cabem quatro.
Minha cabeça dói. Todos os riffies de guitarras estão misturando-se em minha mente, as vozes, os gritos. Tudo está girando. Me vejo muito mal.
Estou ao chão. Na queda, acabei por bater a cabeça. Algumas coisas me vêm à tona, com muita força. Pareço totalmente alucinado, e sou, de fato, louco. Sou um velho bêbado, eu sou o Rock.
*Crônica publicada no jornal Hoje Notícias, de Maringá, a 15 de julho de 2009.
Por Erick Gimenes
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