domingo, 19 de julho de 2009

O mundo de preocupações, com Pingo


Nos últimos dias, tenho me preocupado com Pingo e o mundo. Talvez eles estejam ficando velhos demais, talvez a adultice me alcançou. Para o que me ocorre, não há certezas. Com convicção só digo que as rugas estão aparecendo por conta da observação que tenho feito deles, dia a dia. Cresci com os dois, os admirando, e não me faz bem ver o atual estado deplorável em que se encontram. Meu cachorro está cabisbaixo, triste, com o olhar marcado a apagar, preso em sua própria cela existencial. O mundo, também.

Estão entregues ao destino. Esperando que ele venha, com uma grande pá moral e os recolha. Não gosto nem de pensar. O mundo quem me criou e, eu, por conseguinte, criei Pingo. Éramos muito felizes juntos e, sinceramente, não entendo por que passam por situação tão difícil. Não entendo o motivo para estarem se perdendo de forma cada vez maior. Busco entender o que foi feito errado.

Será o alimento? De fato, sobras de arroz e feijão, bifes velhos e sorvete não estão fazendo bem ao cão. Também não acredito que crimes ao molho pardo, pedofilia e salada de corrupção estejam nutrindo o mundo de forma saudável. O que me chateia é que estou totalmente atado ao que se passa. Não tenho tempo hábil para os dar cuidado. Meu pai é quem dá de comer ao cachorro e, ao mundo, são os homens que passam, que jogam o que têm à mão, em sua jaula.

Tristemente, os vejo decair, sem achar alternativas para os salvar. Estou demais atarefado. Queria lhes dar as melhores condições para que vivessem, até o fim da vida, algo intenso e recompensador. Mas as preocupações humanas estão me levando à falha. Ainda não discirno os motivos que trazem o problema. Como disse, talvez isso seja somente produção de minha precoce alma adulta.

Porquanto, pensando nisso com mais afinco, pode ser este o centro da questão. Mundo e Pingo gostam de crianças, e suas brincadeiras. Gostam do espírito de pureza, de gargalhar em tom maior, de sujar-se na rua, e isso não os posso dar mais. Minha alma infantil decidiu me abandonar, anos atrás, com o passado e as responsabilidades de um possível grande homem – como mamãe queria.

Acredito que até hoje, velhos, eles respiram aqueles ares de infância. Ares felizes como os de quando os deixava soltos. Sempre hesitei ao deixar Pingo ir à rua, pois os cachorros grandes o atacavam e ele não sabia se defender. Por coincidência, é o que acontecia com o mundo. Quando o deixava sem restrições, subitamente vinham os homens com maior poder e o machucavam. Não pude mais deixá-los em liberdade, pois a grandeza não sabe o que faz.

Eles estão doentes. São partes de mim, atrofiadas, à espera da inevitável amputação de meu corpo vital. Pelo que sinto, não há mais volta. Pingo e o mundo já abateram-se demais, construíram infelicidade e ócio, e não há mais como demolir tal obra. A depressão os abocanha, nos dias de hoje.

Estou apenas começando minha trajetória, e sinto que estou perdendo dois pilares essenciais em minha vida. A casa será vazia sem Pingo. Eu serei vazio sem o mundo. Talvez inventem alguma vacina ou cura para a doença de meus maiores parceiros, talvez tudo acabe e eles possam nasçam de novo, espontâneos, felizes, inocentes. Não tenho muitas esperanças, mas, no fundo, ainda acredito na hipótese.

No mais, prometo que tentarei trocar-lhes a alimentação. Porém, acho que não há mais tempo. Tudo já foi estraçalhado pela irresponsabilidade humana e, infelizmente, admito: Pingo e o mundo estão morrendo.



Por Erick Gimenes

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