quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fim

O fim pressupõe o recomeço. Não sei se é o caso do "Dois a um".
Como disse Fernando Pessoa antes do fim: Não sei o que o dia de amanhã trará.
Após nossas férias por tempo indeterminado prometemos que novidades vêm por aí!
Obrigado a todos que, neste ano, passaram por este blog.
Feliz ano novo e felicidades!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poema bêbado

o calor é intenso e o álcool
toma minha mente
ouço música
sinto o mundo girar
devagar, penso em te encontrar
nessas madrugadas entorpecentes
ando por todos os cantos
rodo por toda a cidade
e você está em algum lugar
eu sei que está
sentada em pé deitada
a falar a meditar a olhar
eu sozinho
sem pistas sempre em vão
uma doce ilusão
fruto da mente escrava
e as linhas que escrevo
não são mais retas
as paralelas se cruzam antes mesmo
do infinito
sinto os pés sem atrito
levo o olhar por todos os lados
todos os cantos
embaixo da mesa
sobre o telhado
bêbado de saudade
jogado à beira da rua
ao lado de alguns litros
de qualquer pinga barata
em qualquer canto
de uma cidade qualquer.


Por Ederson Hising

sábado, 5 de dezembro de 2009

Confesso meio abestalhado que...

no determinado instante
em que te olhei, lá, sentada
com a face tristonha
e os olhos sem brilho
pensei em lhe oferecer ajuda
- mas sei que recusaria.
teus sentimentos inconfessos
que atrapalham tuas noites
me fazem perceber
o quanto poderia ser diferente
se aceitasse a ideia de que
a vida não se entende
o sol nem sempre ilumina
e estivesse ao meu lado
e me permitisse lhe dizer:
estou aqui, minha menina.


Por Ederson Hising

domingo, 29 de novembro de 2009

Recordações

eu lembro
foi quando cortei o cabelo
você estava de saia camuflada
- disfarce equivocado –
entrou tímida
olhares contidos
eu como sempre calado

eu lembro
foi quando você voltou
você estava de jeans
- e rosto maquiado –
entrei tímido
você misteriosa
olhares trocados

eu lembro
foi quando voltei do vestibular
você estava de shortinho
- e blusa cor de rosa –
sentei à beira do caminho
você me abraçou
olhares hipnotizados
mãos e dedos entrelaçados

eu lembro
foi quando invernou
você estava de azul
- desviando-se para os lados –
encostei ao portão
você atirou tudo ao chão
olhares inconformados

eu lembro
não me canso de lembrar
essa saudade sorrateira
embaralha meu pensar


Por Ederson Hising

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Marionete


Há tanto a vida me leva pelos braços, vezes arrastado, vezes como uma marionete-sem-futuro, sem escrúpulo algum. Há tanto não tenho parado para pensar no quão ruim tenho sido e no que pode ser melhor para mim nesse momento. Não tenho, porque, afinal, não tenho parado para nada. Nada, que sinto e me sinto; nada que sou. O que faz um tapa ao chão? O que o faz a mim, se é que sou digno de ser considerado alguém. A grande possibilidade de ser considerado um impossibilitado tem me trazido café à cama todos os dias, com um sorriso meia-boca, sem graça. Mas, se queres me fazer desistir, antes, me faça acreditar que posso ser algo. Ao léu, sinto falta do choro, do riso, da fé, e até dela, a quem chutei e jurei a mim mesmo não querer mais ver. Aquilo sim era epopéia, peça magistral, distinta desse teatro sem cor, monótono e monólogo, de cortinas que se abrem para escancarar a derrota da mais sem futuro das marionetes, o escritor de meia-pataca e sem rumo algum.


Por Erick Gimenes

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Manifesto à desistência

Desista, cara. Ou você acha que vai chegar a algum lugar sendo fraco desse jeito? Para de reclamar e arruma um emprego de homem. Esqueça esse curso sem futuro e invista seu dinheiro em algo que te dê retorno. Que mania imbecil de sonhar com o futuro. É por isso que você está aí, agora, sentado à beira da cama, sem sono e preocupado sem saber com o que.
Sim, cara. Tudo isso que você tem feito será em vão. Ou você também acha que será recompensado pelo esforço? Se manca. Caia na real. Isso é balela de filminhos dos “states”.
Ah, também esqueça essa história toda de tentar mudar o mundo. Não, você não vai fazer uma revolução. Não adianta perder seu tempo com essas literaturas imbecis, assim como você.
Leia algo que faça de você uma pessoa com menos sonho e mais ação. Frusciante é bom, mas, porra, o cara tem talento e, por isso, não me venha com seus covers baratos.
Esqueça cara. Você é fraco, humano e limitado. Sem contar que usa apenas o mínimo de seu tempo com algo útil.
Essa garota que você gosta não está nem aí para você. E quer saber? Certa ela. Que futuro um homem de meia tigela que nem você vai ter? Para de viadagem. Você vai perder para qualquer um mesmo. O problema é você.
Você não viu, cara? Já é madrugada. Amanhã você acorda cedo e está aí, com essa boca cheia de dentes comendo e ouvindo música estranha com os olhos cheios d’água.
Você não tem jeito, cara. Contente-se com seu ostracismo. Desista de sua vida mais ou menos. É o melhor que tem a fazer.


Por Ederson Hising

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Insônia

Os dias as horas o calendário
a noite invadiu a madrugada
que agora me atormenta
nesse quarto de paredes brancas
e janela aberta
nesse quarto de cômoda de guarda-roupa
de cama de televisão de poeira
e de mim. Quatro paredes
me cercam e algo provoca
– aqui dentro –
uma inquietude constante.

Por Ederson Hising

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

No bar

no mesmo bar,
sentado no mesmo lugar,
a mesma marca de cerveja
e as horas iguais invadem

fatais momentos só,
no canto sem eira nem beira
o vazio insinua,
vazias cadeiras

no balcão
as mesmas sóbrias faces
fazendo daquilo um disfarce,
em vão.

Por Ederson Hising

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“Raulseixismo deveria ser ensinado nos colégios” *

Sempre com frases marcantes como o ídolo Raul Seixas, o paranaense de Apucarana (60 km distante de Maringá), João Elias da Silva, 40, é “pipeiro” e praticante de vôo livre quando não está nos palcos. Há 13 anos faz cover de Raul e se diz formado pela escola da vida, que, segundo ele, é a melhor que existe. Raulzito – como é conhecido – atrai fãs de Raul Seixas por onde passa.
O “Maluco Beleza” paranaense contou sobre a vida, projetos e falou do ídolo Raul Seixas em entrevista concedida ao jornal Matéria Prima.

Há 13 anos você é cover de Raul Seixas. Como começou essa história?
Rock and roll nem se aprende nem se ensina. Eu acho que já nasci com isso no meu DNA. Meu DNA é “r”, “o”, “c”, “k”. Deve ser esse o meu código genético. Rock and roll começou assim, vem de berço. Sou de uma família de evangélicos e de músicos, o começo veio daí. O fato de ser parecido com Raul não fui eu que percebi. Perceberam para mim. Antigamente eu tocava em uma lanchonete da minha cidade – nem quero falar o nome de lá, porque eu vendo eles e eles não me vendem – e todo mundo toca Raul em lanchonete. Eu tocava Jerri Adriani, “para bailar la bamba”, “wisky a gogo”, esse negócio de barzinho que o pessoal faz. E eu fazia umas músicas de Raul, acho que tocava umas quatro só. Aí o pessoal lá começou a assemelhar meu timbre de voz com o do Raul Seixas. E um amigo meu, o Marcelinho da Rádio Globo FM, me convidou para fazer “Viva Raul e reviva Beatles”, na Cogumelo´s [boate], e foi recorde de público. Nessa época eu nem tinha barba, usava postiça. Emprestava de um amigo meu, o Luizinho que era da Banda Portal da Cor. Então começamos a fazer alguns shows, mas é aquele negócio, quando as coisas começam a dar certo, o olho começa crescer em cima, aí os caras começam a desviar verba. Esse negócio de grana é uma complicação, daí eu sai. Peguei outro empresário, mas era a mesma coisa. Foi então que fiquei sozinho.

A banda Alfa Éden recentemente lançou o primeiro CD, “No princípio”. No mês que vem a banda vai tocar nos Estados Unidos, em Orlando, na Flórida. Como você começou a pensar no trabalho com músicas próprias?
Antes do Grela [guitarrista], do João [baixista] e do Gobbi [baterista] tocarem comigo, tinha uns outros caras que tocavam. Mas eu queria injetar música minha na banda e eles não curtiam. E eles só podiam tocar dia de sábado. De domingo não podia tocar muito longe porque tinha que dar tempo de ficar com a namorada. Vê se eu aguento? E eu precisava de grana, cara. Aí eu falei: “meu, desse jeito não vai dar para tocar com vocês, não”. Tirei os caras da banda no ato. Eles queriam me bater. Quando entrou o Grela e o Joãozinho, eu comecei a mostrar umas músicas que eu faço para eles e eles gostaram, começaram a curtir. Aí começamos a tocar nos shows. Aí pensamos: “ah meu, vamos gravar um CD”. Então eu consegui a ajuda de alguns empresários amigos e a gente gravou em Maringá. Não tenho medo de falar em valores, foi R$ 8.500 para gravar, mais R$ 2.800 para fazer as cópias. Sabe quanto que eu tinha no bolso? Nada. Eu fui atrás de amigos empresários, só que eu levei uma bucha. Eu combinei com quatro caras, que cada um ia dar uma força. Fui ao estúdio e armei a parada. Mas, na hora em que fui atrás deles para pegar a grana, pularam fora. Ficou só um. Aí eu tive que rebolar, porque o negócio já estava em andamento. Mas, graças a Deus, deu tudo certo. E a gente vende os CD´s nos shows. Nas lojas por enquanto ainda não. A gente faz os shows, no palco anunciamos que tem CD no camarim para vender. Às vezes a gente ganha mais dinheiro com venda de CD no show do que com o próprio cachê.

E essa viagem para os EUA?
Vai ser um marco na história da banda e na minha história de vida. Dois fatos importantes: não estou indo lá me aventurar com a cara e a coragem. Outro fato: não estou indo expulso do país. Estou indo para lá, convidado pela produtora MW Star Production, e realizando um sonho que, porra, não é para qualquer um. Vale a pena o esforço, cara. Eu estava conversando com meu guitarrista que depois que voltarmos dos EUA, podemos fazer uma turnê com o “Nenhum de Nós”, que são amigos nossos lá de Porto Alegre. E vamos tocar Raul Seixas, mas também mostrar nosso trabalho próprio porque tem muito brasileiro por lá.

Por meio das músicas, Raul criticava a sociedade em que vivia e a mídia. Mas foi essa sociedade e essa mídia que o ajudaram a se tornar mito do rock nacional. Qual sua opinião em relação a isso?
O grande defeito do brasileiro é gostar daquilo que não pode. Se não pode ter pitbull, os caras têm pitbull. Se não pode tirar racha de carro, os caras tiram racha de carro. Se não pode beber para dirigir, os caras bebem para dirigir. Mas é o povo que consagra. O Raul odiava fazer show. O negócio dele era ficar “tô pulando muro com Zezinho no fundo do quintal da escola” [canta Raulzito]. Ele era aquele tipo de cara que ficava atrás do muro, ou seja, dentro do estúdio, e fazia aquela porção “letrística–bombástica”, jogava por cima do muro e ficava só ouvindo o estouro. É assim que funcionava. Aí o brasileiro, como tudo que não pode, gosta, e na época era proibido proibir. Raul aproveitava esse espaço e através das músicas, das palavras, ele acabava se projetando. Nesse grande “círculo-circo” formado na mídia, vários artistas pagam para ficar lá aparecendo. Já Raul Seixas não pagava para se aparecer, mas a mídia pagava, obrigava, chorava e implorava para que ele fosse se apresentar, porque era o público, a massa que empurrava ele lá. E até hoje é assim. Raulseixismo deveria ser ensinado nos colégios. É uma filosofia de vida. Raul Seixas é começo, meio e fim. Ele escreveu a bíblia do rock nacional. Nela diz: Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei.

Raul Seixas afirmava que “a desobediência é uma virtude necessária à critavidade” e "a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal". Em sua opinião, o que Raul Seixas queria dizer com esses tipos de frase?
Essas palavras que Raul injetava na época eram uma afronta ao poder público. Porque estavam em período de ditadura, um regime militar muito estreito. E ele aproveitava essas alfinetadas que até hoje servem ao “Monstro Sist” [o sistema a que somos submetidos], porque a gente sabe que vive em um país de faz de conta. A lei aqui só existe para pobre e rico não tem lei. É assim que funciona. A desobediência é uma virtude necessária justamente por causa disso, não existia liberdade de expressão. Ele aproveitava a música para “mandar ver”. Raul apanhou várias vezes, foi preso, foi expulso do país. E quando ele foi expulso e ficou nos Estados Unido (EUA), onde ele encontrou John Lenon, teve uma conversa e falaram sobre os donos do planeta. Nesse período estourou o álbum Gita aqui no Brasil. Então o consulado do Brasil nos EUA foi atrás de Raul Seixas e disse que ele precisava voltar. Ele perguntou por que tinha de voltar. E responderam que ele era uma personalidade brasileira e o disco dele havia estourado em vendas. “Você tem que ir, você tem que voltar”, falaram. Parece que na época foram vendidas 600 mil cópias em uma semana, do álbum. O povo estava pedindo Raul Seixas aqui. Diante dessas frases, afrontadoras na época, a gente ouve isso e dá certo alívio. É uma palavra a mais na boca da gente. Hoje Raul é contemporâneo, pelo que ele falava, continua falando e vai falar ainda por muito tempo. Essa música nova dele parece que escreveu ontem. Na época essa letra era proibida e foi modificada e agora está aqui, original. Como ele mesmo dizia, os homens passam, mas a música fica. Não adiantou mudarem a letra, ela voltou a ser original.

Raul seixas teve a morte abreviada em razão do alto consumo de bebidas alcoólicas e também pelo consumo de drogas. Como cover e fã confesso de Raul você bebe ou usa drogas?
Primeiro eu faço cover do Raul Seixas cantor, não da vida dele. Existem covers por aí que confundem e querem fazer cover da vida de Raul. Até sobem bêbados no palco. Hoje o alcoolismo pode ser encarado como uma doença. Eu tenho o vício do cigarro e sei o que é ter vício, é terrível. Eu já li matéria sobre Raul dizendo que aos 11, 12 anos de idade era comum vê-lo em bares bebendo as cachaças dele. Eu não consigo beber. Minha mulher até ri de mim porque se eu tomar uma latinha, eu acabo. Sobre drogas, já morei com um cara que não conseguia se drogar mais e eu tive que aplicar nele. Tinha um amigo meu que queimava todas as minhas colheres para preparar crack. Eu já fumei muita maconha, sobre drogas e álcool é um assunto bem complexo. Eu já tenho 40 anos de idade e bate aquele tic, para segurar a onda, caso contrário vai acabar caindo numa pior. Então a gente acaba segurando a onda, procurando ter certa estrutura psíquica.

Você teve uma infância sofrida e sem estrutura.
Acho que a melhor escola que tem é a da vida. As pessoas que vêm de uma carreira política, que nascem num berço de ouro, têm tudo na mão. Pra mim político não vale nada, eles não fazem por valer, porque antes o governo até poderia trabalhar para a gente, mas agora é a gente que trabalha para ele. Eles querem entrar e nunca mais querem sair. Eles não veem um cargo público. Eles entram ali e querem ficar para sempre. O dinheiro corrompe, a corrupção existe, mas no Brasil é escancaradamente exagerado. Eu amo essa terra e tenho vergonha de quem a conduz. A mídia mostra todo dia, toda hora, e ninguém faz nada. E tudo mundo acha que está certo. A “mulherada” está mostrando a bunda na TV. Todo mundo está “trepando” na TV. Um americano, ou alemão, não sei ao certo, veio para o Brasil e começou a andar pelado e prenderam o cara, mas ele alegou que achava que era normal. Então, olha só a imagem do Brasil lá fora. O Brasil é o país da “marvadeza”, da safadeza e quem vai levando na cabeça é a classe média e a baixa. É na escola da vida que aprendi esses lances aí. Até acho que sei algumas coisinhas, do tipo dois vezes dois.

*Entrevista publicada no jornal laboratório Matéria Prima
Por Ederson Hising

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Perto de mim

Perto de mim
flores amarelas mortas caem
merda escorre pelo ralo
esgoto transborda na tubulação
flores de merda em meio ao esgoto
merda amarela enfeita as flores
esgoto de flores na multidão
amarela vivência entre flores
e solidão.

Por Ederson Hising

De minha janela*

"...Atrás de minha janela
uma vida me persegue.
Com meus trejeitos
imitando quase nada
continuo a observar
a vagar
devagar
sem pensar no que há
à esquerda
à direita..."


* Trecho do poema "De minha janela" de Ederson Hising.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Dica de leitura

Abaixo, o link para quem quiser se deleitar com belas poesias e textos de um dos melhores escritores do Brasil - em minha opinião - Ferreira Gullar, inclusive com alguns narrados pelo próprio autor. Boa leitura!

http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/porelemesmo/index.shtml

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Há tempos

Há tempos trabalho
para atingir seu coração
mas mesmo que aches
não tenho pressa
tenho objetivos
e se alcançados
feliz estarei
mas se por ventura
eu não tiver sucesso
longe
e triste e desolado e amargurado
e lúgubre e fúnebre e ensandecido
pensarei
- e estarei a pensar
pelo resto de minha vivência –
naquilo em que há tempos
acreditei.

Por Ederson Hising

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acontece

Tempo não tenho
Mas não o faço por obrigação,
Certas feitas da vida
Não vêm precedidas de explicação,
Exatamente por isso,
Possuem um quê a mais,
Transformadora de minha paz
Há tanto tempo,
Algo assim não atingia
Simples, do nada,
Causando frisson
Chegou e não demorou,
Sabor de desafio
Tentando enlouquecer,
E Chico já deu o tom,
“Futuros amantes
Que amarão sem saber”

Por Ederson Hising

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Os anos com Débora

Recordo-me sem esforço de meu primeiro dia de aula. Escrever os números de 1 a 100 foi minha grande missão. Minha e de alguns ilustres companheiros (as) de classe. Sentado à frente de Ciclinda, a professora, o gordinho de cabelo lambido e óculos, mostrava-se empenhado – como seguiu por muitos anos, até descobrir que era desnecessário tanto esforço assim.
Só que dessa vez, a historia não é minha e sim daquela garota magriz, com quem não conversava. Passaram-se anos, cinco para ser mais exato, e o máximo que arriscávamos era um oi, muito tímido por sinal. A pequena bailarina, com discrição, conseguia passar despercebida aos olhos da maioria.
Separados pelos caminhos da vida, mal nos trombávamos na pacata cidadela que não consta no mapa. Parece ironia, mas, foram necessários mais cinco anos, para que enfim, pudéssemos ter uma relação, no mínimo, de coleguismo – inicialmente.
Dez anos depois, muita coisa mudou. O Brasil era penta, não existiam mais Torres Gêmeas e Lula, quem diria, estava no segundo mandato. No rapaz, o cabelo lambido deu lugar a uma despenteada cabeleira e a barriga, incrivelmente, havia diminuído. Na moça, a discrição deu lugar à molequice e as sapatilhas foram trocadas por belos pares de all-star.
Unidos novamente pelo destino dentro de uma sala de aula, por razões inexplicáveis foram colocados lado a lado. Começara ali, a razão desta história, até então, introdutória.
De lá para cá, a relação se tornara intensa, mas caros leitores – se é que os tenho – podem tirar o cavalinho de chuva, pois não é uma história de amor ou sexo. Trata-se de algo que nem os dois entendem. E, diga-se de passagem, é preciso, Débora?
Questionamentos a parte, voltemos ao que interessa neste momento. Débora e o escriba, por diversas vezes, são acusados de atos que não praticam, entre os dois, é claro. Mas isso não interfere em nada, apenas é motivo para boas e vagarosas risadas.
Risadas. Ah, risadas. Inconfundíveis risadas, vocês tem, não? Uma mais estranha que a outra. O que sempre acaba em mais risada. Aliás, juntos o que mais praticamos nessa vivência é a felicidade.
A irmandade, outrora confundida pelas famílias, tornou-se algo essencial. Atualmente, é motivo de indagações nas residências dos nobres amigos, quando um não aparece procurando pelo outro. Indagações tão naturais quanto as brincadeiras e garotices praticadas em conjunto.
Gostos em comum, olhares que se decifram e presença que completa. Unidos, em presença ou em mente, são capazes de confortar e fazer companhia um ao outro, mesmo quando não temos saco para nada.
Arrisco-me a dizer que os anos com Débora causam remorso. Afinal, porque ter esperado dez anos? E digo mais. Para mim, todos deveriam ter uma Débora. Porque afirmo isso? Justamente por não me ver mais sem uma dessas.

Por Ederson Hising

sábado, 29 de agosto de 2009

Guerra sem nexo


Tal qual dois moleques, Globo e Record se estapeiam, durante os últimos dias, frente aos genuflexos olhos brasileiros. O conflito é mais um episódio da infindável guerra midiática, que acontece desde o início dos tempos dos veículos de comunicação. Ao campo de batalha, as maiores emissoras do país se enfrentam, sem vergonha, em um “Coliseu televisivo”, assistido pelo público boquiaberto. Como acontecia na áurea época romana, os homens condenados são sempre engolidos vorazmente pelos leões. Infelizmente, no teatro que presenciamos, a informação é a perdedora. Os leões: Edir Macedo, Roberto Marinho e seus sucessores.

Desde a compra da TV Paulista – contestada até hoje, por suposta falsificação de documentos -, em 1964, a Rede Globo de Televisão domina as ações televisivas brasileiras, monopolicamente. O domínio sempre foi claro e reconhecido pelas outras emissoras – o “padrão Globo” de produção. De fato, a empresa de Marinho tinha os melhores recursos e profissionais. Mas, como tudo neste mundo, a hegemonia se foi.

Pelo que se vê na imprensa, a antes incapaz vitória sobre a Rede Globo, em termos de audiência, agora acontece frequentemente. Líder da ascensão, a Rede Record parece ter ganhado confiança com tal possibilidade. Agora, exibe sorrisos de campeão para todos os lados, gabando-se e perdendo as estribeiras.

A emissora, pertencente ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, cresceu monstruosamente sim, tendo como núcleo do sucesso a competente equipe de jornalismo e programas de reconhecido sucesso no exterior, como os reality shows “Troca de Família” e “A Fazenda”. Porém, frequentemente erra, soterrando chavões veiculados a todo o momento em sua grade, como “Record, jornalismo de verdade”, deixando de lado notícias verdadeiras e conteúdos enriquecedores, endeusando a incessante busca pelo triunfo sobre a concorrência.

Após sucessivas vitórias da emissora de Macedo em audiência, os discretos ataques recíprocos se tornaram declarada guerra pessoal entre os líderes e suas peculiaridades. O clímax da peleja se deu quando, no dia 11 de junho, o Jornal Nacional (principal telejornal da Globo) exibiu aproximadamente dez minutos de reportagem acusativa ao bispo. A Record respondeu com mais: um programa inteiro, o Repórter Record, sobre os podres da desafeta e de seus líderes, Roberto Marinho e os filhos.

A partir desse momento, praticamente todos os programas e ações têm mensagens subliminares agressivas ideologicamente. A importância do público se apequenou diante do medo de cair ante ao rival; a televisão brasileira virou ringue de dois pequenos gigantes, que disparam socos subjetivos de olhos fechados, a todos os lados e sem escrúpulo.

Triste ver o momento midiático em que vivemos no Brasil, em tempos que precisaríamos de sua força, quando políticos são cada vez mais insolentes e a população, mais cética. A guerra da mídia é a da revolução, não a do retrocesso, como a que presenciamos atualmente. Chateado, torço para que não se perca o soldado mais leal nessa batalha sem nexo: a informação de qualidade.


Por Erick Gimenes

sábado, 22 de agosto de 2009

Falta lógica

Insisto no que é novo
e o óbvio sempre me cala.
Não vejo meu futuro,
apenas imagino, projeto.
Na lógica dos filmes,
minha luta valeria a pena.

Mas como é triste reconhecer
que na vida falte lógica.

Um som caipira ecoa
e por não mais rimar,
esqueço-me das rimas,
e tudo flui diferente.
Meus pensamentos,
de ontem a hoje,
intermitentes sensações
aproximam o abismo.
Preso, observo,
estranhamente almejo.

Ouvir o que não queria
é entender as evidências
do passado confuso.
Cansa assistir tudo passar,
esperando pela lógica dos filmes.

E como é triste reconhecer
que na vida falte lógica.


Por Ederson Hising

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Apenas um relato ou até mesmo um auto-retrato



Será que essa merda vai valer a pena? Será que um dia vou parar de levar tapa na cara da vida? Será que amanhã vai fazer sol? Será que se eu dormir mais um pouco dá tempo? Será que se eu tivesse feito diferente teria dado certo? Será que nunca mais vou deitar com a cabeça tranquila? Será que cresci para sofrer? Será que saberei lidar com a eterna novidade do mundo para qual Pessoa disse termos nascido?

Será, será, será, serei. Sim, viverei a sofrer como um eterno inconformado a reclamar de tudo e de todos, da chuva e do sol, do frio e do calor, da vida e da morte, do amor e do desamor.

As fatais madrugadas acordado e observando estrelas e, analisando a lua mudar de lugar. Pela posição diferente, adivinhar de onde o sol virá. Estas madrugadas são para mim como facadas no peito, entram e estraçalham o que vier pela frente.

Odeio relatar em primeira pessoa, mas dessa vez é a única maneira de desabafar. Nem o humano mais completo seria capaz de compreender tanta perplexidade em meus olhos. Minhas lutas e minhas dores não comovem a ninguém e, nem sequer, acredito que sejam as piores.

O fato de ser cego todas as noites antes de dormir, machuca. Sentir-me imbecil quando lembro daquela história de amor, destrói a mim, mas deve ser a alegria de outros tantos, porém quem sou eu para estragar a alegria daqueles que enxergam a vida como uma viagem por meio de ervas e sintéticos.

Engulo e digiro como acho conveniente o que me dizem, e quase sempre, sofro de indigestão. E é indigesto pensar naquilo que não tenho mais e ainda não passou. As páginas parecem não mudar e triste seria não chorar, pois é o choro o único remédio. A dor renitente é capaz de ser mais libertadora do que sentir a brisa da manhã.

Levará muito tempo. Parece ser tarde mesmo sendo tão cedo. Solitário a reinar no mundo do óbvio. A eternidade presente. O relato se tornando crônica, a crônica virando poema e a dor se instalando, crônica.

Os finais nunca foram felizes. Nos esportes cansei de ser vice e no amor de ser substituído. E para um relato como esse não esperaria final melhor do que o da vida – nunca inteiramente feliz. Na verdade isso tudo me leva a acreditar que seja melhor adoecer e sentir a morte chegar distante do mundo urbanizado, do massacre e da falta de pudor.

Assim como Raul – o Seixas – indago em qual esquina a morte vai me beijar e com que rosto ela virá. Pensei até que não pudesse terminar esse copo de cerveja e o relato, o que talvez tivesse sido melhor.

Por Ederson Hising

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Minutos de meu dia

Tenho mais dois minutos de café.
Nos quinze passados,
li sobre história da comunicação.
Quatro e nove,
Radiohead soa trágico,
cansado e enjoado,
algum barulho tira minha atenção.
Quatro e dez,
acabou o café,
tudo se movimenta ao meu redor,
eu, menor,
sou chamado
pra trocar a lâmpada,
havia queimado.
De minha mesa,
se olho à frente,
vejo apenas uma parede branca,
sem manchas,
ao contrario de minha alma.
O som de digitação,
Predomina assim que a música
para de tocar no meu fone.
Quatro e dezoito,
volto ao trabalho.

Por Ederson Hising

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Confissão


Eu lhe disse que tentaria. Dei meu máximo, mas não pude ser maior que toda sua construção. Meu juro de jamais desistir de você apagou-se, soterrado pela realidade infeliz, por sua persistência em querer tudo de forma errada. De coração, não entendo a covardia que lhe tomou. Medo de ser feliz? Medo do amor? Medo do que, pelo amor de Deus?
Você venceu.
Sem ar, desisti. O que me resta, contrariado, é destruí-la, pois não há como manter laços de amizade em um mar de enganações. É o que mais odeio em minha vivência, mas, tristemente, faço-lhe: admito que perdi.


Por Erick Gimenes

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Das desilusões

Quando as festeiras madrugadas
dão lugar às tristes lembranças noturnas,
a cabeça dói e, a saudade traiçoeira e
taciturna,
corrói os resquícios de felicidade

Viagens mentais desequilibram o ser,
sozinho, vê-se o mundo verdadeiro,
conflitos existenciais afloram,
atingem,
como covardes tiros de morteiro

O coração vazio subitamente preenche
de tristes lindas recordações,
nítida sensação de impotência,
acomete,
com despudor e veemência

Quando as rotineiras manhãs
dão lugar ao frívolo amanhecer,
o peito apertado embarga a voz,
mudo,
segue-se o incrível caminho do entristecer.


Por Ederson Hising

sábado, 25 de julho de 2009

Ao homem, com tristeza


Caros humanos,

Quero expressar-lhes a indignação (minha e de todos nós), que nos abate neste momento, pelo que se ouve ao nosso respeito. Temos apreço pela deferência que vocês conquistaram por todo o reino animal, suas capacidades e o domínio que impõe sobre o mundo, hoje. Isso é de bom tom, porquanto, algo não nos faz compreender o motivo para que tanta porcaria seja arremessada aos nossos focinhos, sem motivo algum, durante todos os últimos nasceres do Sol.

Buscamos, com a presente carta, pôr a falsa acusação que vocês estão fazendo a nós a panos limpos. Sob a perspectiva de nossa sociedade, representada aqui por sua instituição maior, a Organização dos Chiqueiros Unidos (OCU), elevamos este documento a comunicado oficial, emitido por nosso filo a toda humanidade.

Com esperança, cremos que a consagrada racionalidade de vocês, homens, vai lhes bater à porta da consciência, os dando o discernimento necessário para que pensem o quão grande é a injustiça que estão cometendo a nós.

Acredito que, a essa altura, já saibam o núcleo da prosa de tal epístola. Pois, estamos profundamente entristecidos frente às acusações, provindas dos caríssimos, que põem nossa classe como geradora de uma enfermidade que, sob nossa concepção, é advinda de vocês e sua sociedade, somente de vocês. Não há por que dar-nos algo às mãos, quando em nenhum momento isso foi de nosso pertence.

Entendam: essa não é somente a revolta do grande porco revolucionário e comunista, que sou. É o grunhido de gerações e gerações suínas, feridas pela faca mais afiada que adentrou nossas caixas torácicas. Fora a apunhalada do desrespeito, onde nossa moral foi apresuntada, e é isso que leva os seus olhos a lerem este manifesto, neste momento.

Sabemos que a “gripe suína” está afligindo toda a raça humana, por todas as regiões do planeta. Solidarizamos-nos e entendemos que é difícil, pomo-los no lugar de vocês. Caso necessite, até nos colocamos à disposição para ajuda. Propomos-nos lhes dar alimentação, e ainda cedemos nossa força física, se quiserem. Porém, em troca, queremos, de novo, reforçar nossa súplica.

Por piedade: façam-nos toicinho, torresmo, lingüiça. Usem-nos de cofre, de mascote. Podemos até ser-lhes amigos para qualquer ocasião - temos grande senso de humor. Mas, pela integração animal, não nos acusem do que não fizemos. Isso nos faz tristes.
O vírus, amigos homens, não veio de nós. Posso garantir-lhes com a certeza de que toda a assistência aos que necessitam de cuidado suíno está sendo dada. E mais: pelo que sei, não há porcos com tal doença, em lugar algum.

Arrisco-me a dizer que entre todas as maçãs que nos colocaram à boca, essa foi a maior e mais dolorida, pois não só nos calou as cordas vocais, mas também fez silêncio à felicidade de nossas almas.

Temo que o vírus que os atingiu seja outro, que não o H1N1. Temo que, mais grave, o vírus da prepotência os tenha atingido. Suplico, humanos, que reflitam sobre o que se passa, e respeitem todos os animais e a natureza, pois estes necessitam de vocês, e vocês deles. Ao que me lembro, nunca os cachorros os acusaram de ter-lhes transmitido carrapato, nem os bois foram à imprensa, indignados, se queixar de que o homem o transmitiu a febre aftosa.

Escrevo-lhes com patas respeitosas e tristonhas. Espero que possam ser mais coerentes em suas colocações, mais respeitosos. E, mais, espero que se curem para sempre do mal que os atinge, em especial o mais perigoso: o sentimento virótico da arrogância humana, que pode os matar para sempre.



Por Erick Gimenes

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Os doce domingo de vovó


À tarde de domingo, mais uma das saudosas reuniões familiares, e, de novo, eu ignorara as suculentas picanhas à espera do que se ofereceria depois, ao meu atônito estômago. Tentava enganá-lo com as balas de hortelã - que comprávamos aos sacos, no bar de seo Raimundo -, mas ele prosseguia fazendo escândalo, em meio a todos. Há de se convir que tinham fundamento os histéricos gritos de meu sistema digestivo. Eles clamavam pelo doce mais doce que já vi em minha vivência: o doce de abóbora de vó Nida.

É trazê-lo ao meu pensamento e minhas glândulas salivares já começam a se alvoroçar. Como pode o ser humano capacitar-se a ponto de fazer tal obra? Até hoje, ninguém soube explicar, racionalmente, que poder tomava as mãos de vovó.

Devo ser mesmo dom, só pode. Ao fazê-lo, entre o bater da colher de pau e os contos da juventude, nos explicava, com humildade única, que havia aprendido a receita sozinha, e que era muito simples. Eu tinha convicção que era verdade, pois para ela, de fato, fazer o doce era tão banal quanto a produção de gelos.

Não posso deixar de citar a divina macarronada a molho de tomate que também era servida, mais saborosa que as vendidas nos chiques restaurantes italianos, e do cafezinho meticulosamente açucarado, também nascente no talento excepcional da maior cozinheira que conheci.

Vó Nida fora merendeira de colégio, em tempos que meu pai não planejava nada além de uma bicicleta nova. Fico imaginando quão privilegiados eram os alunos que desfrutavam de sua divindade, sem pagar um tostão. Com certeza, não lhes vinha à consciência que comiam a comida dos céus. Fosse minha época, e os exercícios escolares seriam somente com talheres.

Mamãe arriscou-se. As sete tias também ousaram fazer igual, além das quinze primas. Nunca chegaram ao menos perto – e acredito que nunca chegarão. Pessoas capazes de fazer o doce de abóbora igual ao de vovó são fenômenos que só acontecem a cada vinte mil verões.

A saborosa massa alaranjada de meus domingos fora o maior sustento de minha fase crescimento. Semana à semana, engolia pires cheios do primor, cada vez maiores. A alimentação não-balanceada também fez crescer meu intelecto; não havia como não absorver ao menos um pouco do conhecimento que era usado na formosa construção.

Vovó Nida está amadurecendo; justo quando o doce ficava cada vez melhor. Infelizmente, a idade também alcança os gênios. Trabalhara nas lavouras de café, quando criança - muito criança - , e isso afetou sua coluna. Os problemas só vieram manifestar-se agora, nos dias mais açucarados de sua vida.

Atualmente, as abóboras estão intactas à horta, com saudade das mãos que lhes faziam tão bem. Também não tenho mais comparecido aos churrascos de final de semana, que dificilmente acontecem. Infelizmente, os doces domingos parecem ter acabados.

Espero que os problemas de vovó passem, e que volte à cozinha em breve. Estão sendo amargos os dias sem sua maior criação. Quem sabe os encontros não estão dando as caras justamente por sentirem a falta do quitute.

Aquele doce de abóbora certamente marcara minha vida, pois era feito com o açúcar da simplicidade, e esse é seu maior valor. Ele me trouxe ensinos, me fez nutrição por anos; porquanto, mais que isso, fez crescer o amor que sinto por uma das pessoas mais queridas de minha vida, o doce de minha avó.


Por Erick Gimenes

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Poema sincero

o nada, o nunca, o erro
e o viver,
nos consome

consumidos,
nada somos, nunca seremos, sempre erramos
e não vivemos

nada, nunca, errantes,
meio vivos
e consumidos

pelo não ser,
pelo não ter,
pelo jeito contraditório
de viver.

Por Ederson Hising

domingo, 19 de julho de 2009

O mundo de preocupações, com Pingo


Nos últimos dias, tenho me preocupado com Pingo e o mundo. Talvez eles estejam ficando velhos demais, talvez a adultice me alcançou. Para o que me ocorre, não há certezas. Com convicção só digo que as rugas estão aparecendo por conta da observação que tenho feito deles, dia a dia. Cresci com os dois, os admirando, e não me faz bem ver o atual estado deplorável em que se encontram. Meu cachorro está cabisbaixo, triste, com o olhar marcado a apagar, preso em sua própria cela existencial. O mundo, também.

Estão entregues ao destino. Esperando que ele venha, com uma grande pá moral e os recolha. Não gosto nem de pensar. O mundo quem me criou e, eu, por conseguinte, criei Pingo. Éramos muito felizes juntos e, sinceramente, não entendo por que passam por situação tão difícil. Não entendo o motivo para estarem se perdendo de forma cada vez maior. Busco entender o que foi feito errado.

Será o alimento? De fato, sobras de arroz e feijão, bifes velhos e sorvete não estão fazendo bem ao cão. Também não acredito que crimes ao molho pardo, pedofilia e salada de corrupção estejam nutrindo o mundo de forma saudável. O que me chateia é que estou totalmente atado ao que se passa. Não tenho tempo hábil para os dar cuidado. Meu pai é quem dá de comer ao cachorro e, ao mundo, são os homens que passam, que jogam o que têm à mão, em sua jaula.

Tristemente, os vejo decair, sem achar alternativas para os salvar. Estou demais atarefado. Queria lhes dar as melhores condições para que vivessem, até o fim da vida, algo intenso e recompensador. Mas as preocupações humanas estão me levando à falha. Ainda não discirno os motivos que trazem o problema. Como disse, talvez isso seja somente produção de minha precoce alma adulta.

Porquanto, pensando nisso com mais afinco, pode ser este o centro da questão. Mundo e Pingo gostam de crianças, e suas brincadeiras. Gostam do espírito de pureza, de gargalhar em tom maior, de sujar-se na rua, e isso não os posso dar mais. Minha alma infantil decidiu me abandonar, anos atrás, com o passado e as responsabilidades de um possível grande homem – como mamãe queria.

Acredito que até hoje, velhos, eles respiram aqueles ares de infância. Ares felizes como os de quando os deixava soltos. Sempre hesitei ao deixar Pingo ir à rua, pois os cachorros grandes o atacavam e ele não sabia se defender. Por coincidência, é o que acontecia com o mundo. Quando o deixava sem restrições, subitamente vinham os homens com maior poder e o machucavam. Não pude mais deixá-los em liberdade, pois a grandeza não sabe o que faz.

Eles estão doentes. São partes de mim, atrofiadas, à espera da inevitável amputação de meu corpo vital. Pelo que sinto, não há mais volta. Pingo e o mundo já abateram-se demais, construíram infelicidade e ócio, e não há mais como demolir tal obra. A depressão os abocanha, nos dias de hoje.

Estou apenas começando minha trajetória, e sinto que estou perdendo dois pilares essenciais em minha vida. A casa será vazia sem Pingo. Eu serei vazio sem o mundo. Talvez inventem alguma vacina ou cura para a doença de meus maiores parceiros, talvez tudo acabe e eles possam nasçam de novo, espontâneos, felizes, inocentes. Não tenho muitas esperanças, mas, no fundo, ainda acredito na hipótese.

No mais, prometo que tentarei trocar-lhes a alimentação. Porém, acho que não há mais tempo. Tudo já foi estraçalhado pela irresponsabilidade humana e, infelizmente, admito: Pingo e o mundo estão morrendo.



Por Erick Gimenes

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Filosofia de boteco

Quinta-feira, seis e pouco da tarde, os dois amigos rumam sentido a qualquer boteco de esquina. Para começar, nada melhor que uma cerveja bem gelada. Como dizem os apreciadores diários de tal bebida, os rapazes estavam, apenas, “molhando as palavras”. O bate papo ainda estava comum, até que, garrafas depois, a conversa tornou-se aquele famoso papo de boteco.

Todo brasileiro que se preze, algum dia, já discorreu acerca de sua filosofia de vida sentado à mesa de algum botequim. Era o que os dois moços faziam. Entre cerveja e outra, e, espeto e outro, a conversa engrenava e tomava rumos cada vez mais filosóficos. Jovens, mas preocupados com o futuro, discursavam sobre os medos e anseios profissionais e de vida.

Célebres seres humanos condenados ao esquecimento, a cada copo de cerveja, viam a vida com olhos mais tristes e um tanto quanto saudosista. Sabedores do tudo e do nada, viam carros passando pela avenida e percebiam, exacerbadamente, como era no mínimo ridículo, o cotidiano.

De acordo com eles, a vida meus caros, é trágica. Razões sobravam para os dois moços partilharem da mesma opinião. Em determinadas ocasiões, as filosofias de boteco, são compatíveis em mais de uma mente insana. Os amigos conversaram também sobre as mulheres. Essas atormentadoras de pensamentos e causadoras de infelicidade, os fizeram gastar alguns copos da bebida fermentada, feita da cevada, do lúpulo e d´outros cereais.

Escafandristas do pensamento alheio, algumas pautas para a construção de filosofias de bar são retiradas do silêncio da mesa em que se está sentado. Pois é nessa hora, que a vida dos outros, assim, sem querer, penetra nos ouvidos de quem viaja por perto. Foi dessa forma que a visão sobre as mulheres mudou por alguns instantes, afinal, a loira conversando sobre o namorado ao lado e a morena passando à frente, deixavam o olhar sobre a vida mais ameno e um tanto libidinoso.

Depois de horas ali sentados, à beira da rua, cheirando churrasco e com bafo de álcool, os amigos se esgotaram. O levantar da cadeira pareceu mais uma passagem de volta ao mundo real. Depois que cada um construiu a carreira e criou os filhos de umas três maneiras diferentes, partiram de lá para a sequência de suas vidas. Fazendo o que todo mundo faz; sendo o que todo mundo é; vazios como todos são.


Por Ederson Hising

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Me chame a biciclância



Ao cruzar o sinal vermelho, um motociclista, arrebatado por um carro a 70 Km/h, em média, bate com a cabeça ao chão, após ser arremessado a 15 metros de distância. Os poucos espectadores desesperam-se, em busca de ajuda repentina. Logo, o senhor que guiava o veículo, aflito, toma o celular à mão e contata o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, para que os primeiros socorros sejam prestados.

Passa-se dez minutos; se ouve a sirene e, para o espanto de todos, vê-se um pequeno giroflex, menor que o comum, pendurado sobre uma moto 250 cilindradas. Pois a nova tendência chegara também à saúde pública.

Após a regulamentação de serviços como mototáxi, motoboy e motovigia, o Ministério da Saúde também resolveu aderir à moda sobre duas rodas, investindo R$ 6 milhões em 400 motocicletas, possivelmente usadas para o auxílio nas emergências. São as “motolâncias”.

Ao ler essa notícia, assustei-me. As estatísticas logo me vieram à cabeça - que tinha os olhos arregalados -, me fazendo lembrar que os acidentes mais graves e freqüentes acontecem justamente com as motocicletas. Tive preocupação. Serão seguras tais unidades? Elas serão imunes ao perigo, mesmo obrigadas a andar em alta velocidade? Na dúvida, prefiro lançar-lhes minha ideia, bem mais conveniente: as “biciclâncias”.

As biciclâncias, veículos paramentados para oferecer ao paciente maior conforto nas ocorrências de emergência, terão todos os aparatos comuns à ambulâncias europeias. Nelas, haverá cilindro de oxigênio, baú de carga, colares cervicais, desfibriladores externos, luvas estéreis, ataduras, compressas, seringas e cateteres e uma televisão de plasma, todos à garupa.

As bicicletas, em si, também serão de grande qualidade, oferecendo ao necessitado selim revestido a silicone, luvas de borracha, retrovisor - dos dois lados – e, o essencial, sirene a ar. De fato, o equipamento será de ponta.

À minha precisão, mais R$ 6 milhões, e teremos mais mountain-bikes que nas ruas de Pequim, atuando em prol da saúde. As vantagens, caro futuro paciente, serão inimagináveis.

Pense comigo.

A cada mês, com a economia de combustível, poderemos adquirir mais dez veículos, abastando o país inteiro. Além do mais, acariciaremos a natureza com a preservação do ar, cada vez mais puro. As árvores, de joelho, agradecerão a nova proposta.
Os pilotos-socorristas passarão por um criterioso processo de seleção. A ideia é garimpar sujeitos trabalhadores da matina, pós-graduados em ciclismo trabalhista, e os inserir medicina à cabeça, por osmose. Com certeza, serão melhores especialistas em saúde do que os japoneses são em mecatrônica.

Mas, me deixe chegar ao ponto principal: a segurança. Garanto-lhe que não existirá, nos próximos cem anos, meio de transporte mais seguro que as biciclâncias. Os capacetes, que também têm função de colares cervicais, são o primeiro triunfo do moderno sistema de segurança que ela oferecerá. Os airbags e apoios laterais infláveis darão o restante do apoio necessário. Em último destino, caso ocorra algum acidente, fique sosegado - cientificamente, não existe chance de danos. Basta levantar-se, estapear a poeira dos joelhos, e tomar-te o rumo. Maravilhoso!

Pensando com mais apreço, acho que vou levar a ideia adiante. Me candidatarei à próxima eleição, ou, no mínimo, pechincharei algum cargo para meus tios, que trabalham com isso. Prometo defender a causa com força, afinal, bicicletas ainda são ótima alternativa para quem anda a pé, como a saúde no Brasil.



Por Erick Gimenes

terça-feira, 14 de julho de 2009

Alucinações do velho Rock



Em meu relógio, três e dez da manhã. Cá estou eu, sobre o frio balcão de mogno, sem forças para mais nenhum movimento, além do que leva o copo à minha boca. Ao que me lembro, estou no grandioso Bar do Rock. No mais, apenas recordo-me vagamente do sujeito barba-rala que me ciciou, três copos de cerveja atrás, acerca do festejo do proprietário deste estabelecimento, ontem.

Acredito que se referia ao aniversário do velho Rock, senhor que faz parte de minha vida, há bastante tempo. Desde a molequice, aprendi a admirá-lo, talvez por ser deveras excêntrico, como eu, diferente dos que nasceram em sua geração. Em meus primeiros anos, seo Rock sempre falara comigo, todos os dias, a todo o momento que podia. À memória, mesmo abatida, emergem as ocasiões em que eu deixava as lições ou as travessuras à troca de ouvi-lo, ao menos por instantes. Mesmo atordoado, essas lembranças me trazem alegria. Não há explicação, mas, de seu jeito, ele falava ao meu coração de forma direta e profunda.

A cargo de detalhe: nunca soube-se ao certo a real idade do velho.

A gritaria, ensurdecedora aos homens que habitam o local neste momento, se faz muda enquanto meus olhos turvos observam a estrutura presente. Quanta história ali, reunida às mesmas paredes! A trajetória de Rock e sua obra é, no mínimo, fascinante.
Os mais antigos bordam que ele nascera na periferia norte-americana, entre os negros e a marginalidade. Ainda dizem que o crescimento dele foi avassalador, inédito. Ali, Rock se tornou grande revolucionário, e a partir daí passou a impressionar não mais no país de origem, mas em todo o mundo.

Chegara ao Brasil na década de 50, e fora recebido com honras de grande conquistador. De fato, era um líder, e aqui também mudou gerações. Alterou formas de expressão, vestimentas, e principalmente a maneira de pensar. Em pouco tempo, era tão reconhecido nacionalmente quanto Getúlio Dornelles Vargas.
Queira perdoar-me, mas o chacoalhar de meu cérebro não me deixa avançar mais que isso historicamente. Penso em deleitar-me no fervor desse bar, que, por ver, está abastado de pessoas interessantes.

Fitando os bancos giratórios que estão enfileirados ao meu lado, reconheço alguns rostos, alguns gestos. Realmente, não devo estar bem. Ouço sons que já me emocionaram antes. Talvez já tenha visto aquele balançar de cabeça, daquele homem. Será tudo isso real?

Não, não posso acreditar. A duas mesas, Jimmy Hendrix toca sua guitarra, exclamando solos enlouquecedores, provindos de uma alma negra. Excepcional! Antes, Elvis acabara de passar por mim, cumprimentando-me com um simpático tapinha às costas, antes de ir ao toalete. Sem dúvida, nesta noite, o Bar do Rock está surreal.

Pois sinto a harmonia dos Peppers tomar estrutura em meu peito. Eles estão aqui, posso dizer com convicção. Jimmy Page e Robert Plant também devem ter vindo; ouvi notas de “Starway to Heaven”, de passagem. Aquele bigode não é outro senão o de Frank Zappa. Até eles! Até os Beatles estão ali, comportados à mesa quadrada, onde só cabem quatro.

Minha cabeça dói. Todos os riffies de guitarras estão misturando-se em minha mente, as vozes, os gritos. Tudo está girando. Me vejo muito mal.

Estou ao chão. Na queda, acabei por bater a cabeça. Algumas coisas me vêm à tona, com muita força. Pareço totalmente alucinado, e sou, de fato, louco. Sou um velho bêbado, eu sou o Rock.


*Crônica publicada no jornal Hoje Notícias, de Maringá, a 15 de julho de 2009.


Por Erick Gimenes

sábado, 11 de julho de 2009

Destoa

Desfocado do real
e, mesmo que fosse
sincero,
Seria mais um banal
sem nenhum esmero,
Vagando por emoções,
MPB e rock and roll,
Balançando na rede
distante do próprio show,
Travado, desencontrado
voz embargada
de sentimentos contrários,
O mundo lua
atrai, distrai,
Pancada traiçoeira,
Dói, destrói,
Descrente de si
exímio torturador,
Como mero espectador
assiste a vida destoar,
Com álcool e ilícitas
faz a mente
girar, girar, girar.

Por Ederson Hising

domingo, 5 de julho de 2009

Todas as minhas lutas, de ontem a amanhã


Sentado em minha cadeira-balanço, meço o quão encantador é ser pai. Uma vértebra do jornal escangalhado está à frente dos meus olhos, aos meus braços, mas não estou conseguindo ouvir as palavras que ele insiste em me dizer. Estou mais além, em meu passado. Sempre que volto para meus gloriosos anos, a afirmação logo me estapeia a cabeça: viver o incrível, de fato, não é fácil. Pelejei muito até chegar aqui, neste lindo presente, do qual meu filhos desfrutam. Mas aprendi a gostar dessa luta, pois é nela em que me tornei vencedor insaciável.

Sempre fui revolucionário, idealista e, modéstia à parte, muito bonito. Era fácil gostar de mim. Eu falava com todos, sobre tudo; alfinetava os políticos com fúria, mostrava ter opinião em todas polêmicas - e conquistava adeptos. Ninguém mais conseguira viver sem mim. Todos me amavam de verdade. Eu gritava o que eles queriam gritar, e por isso era dessa forma.

Logo, me vi grande. Comecei a formar ideias com consciência espantosa, virei celebridade mundo afora. Foi a partir daí que vi a habitação por metro quadrado em meu lar crescer mais que em Pequim. Tive poucos amores, mas muitos e muitos filhos. Acabei prejudicado pela genética. Grande parte deles bombeava o coração à rebeldia, como eu, e por isso, espalharam-se pelo mundo, deixando-me de lado. Comigo, sobraram oito dos mais jovens.

Vou lhes contar um pouco sobre eles.

Começarei pelos mais novos. Meus três molequinhos, Bruno, William e Ederson são inseparáveis, inclusive nas paixões. Nunca havia visto tanto apego, como os três têm por futebol. Nas refeições, o tempero deles é algo como molho de discussões táticas. Passa o Ronaldo, por favor?

Juntas também estão sempre Gesli e Camila, duas alucinadas por música. Quando preciso achá-las, basta uma visita ao quarto rosa, que fiz para as meninas, que lá estarão elas, sempre conversando alto e com fones atarracados nos ouvidos.

Paula fala mais alto ainda, sozinha. Paulinha, como a chamo, tem estilo próprio e suas peculiares loucuras. Mesmo na pré-adolescência, já tem saudosismo como modo de vida. Sangue do meu sangue.

Elton e Anna, os mais velhos, vivem na rua, cada um com seus amigos e seu jeito. Tom é mais observador, age com racionalidade e serenidade. Anna gosta de falar, como gosta de falar! De qualquer modo, ambos se sentem bem ao relacionar-se com a sociedade e descobrir coisas novas. De formas diferentes, como são, eles são bastante curiosos e creio que isso os faz crescer como estão crescendo.

Nos últimos dias, tenho me preocupado com meus filhos. Estou envelhecendo, muitos dizem que não tenho futuro longo e, sinceramente, não sei quem vai acolhe-los quando eu partir.

De novo, estou em meu jornal. Já não consigo discernir se estou no presente das notícias, em meu passado ou no futuro dos meus filhos. Meus próximos dias são incertos, mas, acredite, não vou mudar, nem desistir. Fiz minha história com brilhantismo e, nela, lutar sempre foi matéria prima.


*Crônica escrita para o jornal experimental Matéria Prima.


Por Erick Gimenes

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Desencontrado

- Me vê um café e um salgado, por favor, disse o rapaz segurando uma nota de R$ 5.

Cansado, ele seguia para o único momento de refeição no dia. Consumido pelas horas e pelo estresse do trabalho sentou-se num banco qualquer e deleitou-se com o salgado que tinha recheio de carne moída barata. O café, companheiro de longa data, mantinha os olhos – do moço de barba mal feita –, abertos. Camisa amarrotada, blusa cheirando cigarro, calça surrada e sapato sujo. Sim, o dia além de tudo, ainda rendeu-lhe os itens descritos.

Rapidamente, bebeu o último gole de café e passou a blusa limpando a boca. Levantou-se com as costas tortas, empunhou a mochila pesada e seguiu o caminho até o ponto de ônibus. Chegando lá, cumprimentou com a cabeça um senhor e encostou-se no primeiro pilar que encontrou pela frente.

Com dez minutos de atraso o metropolitano chegou. O moço entrou e sentou-se no primeiro lugar que viu pela frente. Colocou os fones de ouvido, pegou um livro, mas nem a música, muito menos a literatura prendia a atenção do jovem. Havia algo de estranho.

Ao descer do ônibus, acendeu o ultimo cigarro que tinha no bolso e caminhou, sem rumo. Pensava nos filmes que ainda não tinha visto, nos livros que não havia lido e também naqueles que sonhava em escrever. Cantarolando algum rock progressivo, correu.

Quarteirões, avenidas, travessas, praças, viadutos. Correu. Sentiu calor na noite de frio. Suou tomando vento gelado. Correu. Queria fugir de si mesmo, mas era em vão. Tinha medo de estar acompanhado pela consciência, pois ela traria consigo a razão.

Desmotivado. Esgotado da racionalidade hipócrita do cotidiano. Parou. Gritou para quem quisesse ouvir. Apenas gritou. Um grito atordoado, desencontrado. Cansou. Dormiu. É, ali mesmo, no chão da calçada. Com o peito doendo e uma lágrima sincera escorrendo pelo canto do olho.

Acordou. Sozinho partiu com a feição abatida. Sem mais a fazer, mesmo jovem, cansou-se da vida.


Por Ederson Hising

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem o rei, os impérios da música ruirão


Ainda não me desce à garganta, mas Michael Jackson morreu. Em casa, o astro mais reluzente da constelação musical nos deixou, frágil, triste, sozinho. Seu coração não agüentou a dubiedade do sangue corrente, mistura de extremo talento e perdição. Confesso que é difícil, quase que inimaginável, eu, articulista e fã, não escrever com o coração neste momento. Que me perdoem os racionais ortodoxos, mas Michael era só coração; em sua homenagem, também serei.

Escrevo a batimentos, sim. Ato falho jornalístico. Porquanto, sinceramente, não entendo os que escrevem e falam com a soberba, com a superficialidade. Não compreendo os que julgam-se sabedores do que não sabem. Digo isto por que li mais absurdos sobre Jackson do que a tiragem do disco “Thriller”. Detalhes e revoltas não cabem na ocasião. Por respeito, quero falar coisas boas.

O “rei do pop” não obteve hegemonia somente em terras próprias. Michael era conquistador. Comandou revoluções, abocanhou todos os territórios musicais, uniu gregos e troianos e foi aclamado como o maior. Mesmo assim, alguns bobos da corte ainda insistem em relevar somente os deslizes que cometeu, ignorando a grandiosa obra que construiu.

Gênio, sempre viveu sob turbulências, afogado em psicoses e medos. Nunca foi feliz. A opressão e o autoritarismo do pai, Joe Jackson, que o espancava física e mentalmente, não o deixou saborear a infância. Pelo restante da vida, tentou resgatá-la, mas, infelizmente, a alegria não quis dançar com Michael.

Jackson foi o artista que mais vendeu discos na história da música - mais de 200 milhões de cópias - e tinha todos os atributos para tornar-se um dos maiores ícones da música, como, de fato, se tornou. No começo da carreira, com o Jackson 5 - grupo formado por ele e os irmãos - cantou a mais doce voz já ouvida ao mundo, aos cinco anos. Deixou todos boquiabertos; nunca havia se visto afinação tão perfeita. Cresceu e dançou como nenhum outro ser humano havia dançado, arquitetando o passo de dança mais fabuloso e conhecido da história, o “Moonwalker”. Ainda, foi grande produtor e compositor, além de precursor dos videoclipes e shows espetaculares, carregados de encanto. Foi único, genial.

Repito: Não acredito, mas o maior artista de todos os tempos foi-se. Sucumbiu a tão grande talento, esquizofrenicamente maior que a estrutura emocional e psicológica que o sustentava como humano – se realmente era. A magia não coube aos ombros. Michael Jackson foi e sempre será lenda, mas morreu sem conseguir realizar o sonho de ser homem, somente homem.

A indústria musical, reino de Michael, passa por grande fragmentação, como o mundo todo, e não será capaz de produzir outra jóia-rara como a que acaba de se perder. Talvez Michael Jackson seja o último a sentar-se no trono dos acordes, deixando um vazio impreenchível. Ele foi fora de série, foi mito, foi o rei mais extraordinário que vi. Para sempre a arte chorará lágrimas melódicas pela perda de seu maior astro, que subiu até o inalcançável alto dos céus, foi apedrejado, e morreu jogado ao chão, sem luz e fora de órbita.


Por Erick Gimenes

terça-feira, 30 de junho de 2009

Todo mundo mente

Irracionalmente, claramente,
Quem lê, mente,
Efetivamente, certamente,
Quem ouve, mente,
Evidentemente, exageradamente,
Quem fala, mente,
Intrinsecamente, intencionalmente,
Quem escreve,mente


Por Ederson Hising

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um... louco

Quanto mais aprendo,
Menos vejo que sei
E, realmente,
Sou sim, resultado
De uma soma

Vivo numa redoma
Víboras insistem
Coitadas,
Não assustam,
Mas nunca desistem

Se hoje sou um,
Amanhã,
Não posso ser
O mesmo um
E Deus queira
Que eu seja
O outro um,
Com mais força

De fato,
Não sei de nada
Da vida e,
Prefiro não saber,
Até mesmo por que
Não me deixam ser

Alienação
Traz felicidade,
Aprendi tudo isso
Com um louco,
O quê?
Não acredita em loucos?

Desculpe-me, não sabia
E por favor,
Desconsidere então
Tudo o que eu disse,
Agradeço a compreensão,
Caro companheiro

Num país onde as leis
São feitas no banheiro
É melhor mesmo,
Ser louco,
Espantar,
Não entender
Muito menos, aprender

O certo é
Viver,
Tapando cara,
Olhos e ouvidos

Aos desavisados,
Cuidado,
Quem quer aprender
Por aqui,
Não é reconhecido.


Por Ederson Hising

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Obrigado, Excelentíssimos imbecis

Imbecis sempre serão imbecis. Mais uma vez, os políticos provaram talento para o cargo. De novo, votaram o que não sabem, falaram o que não sabem, fizeram – como farão por toda a eternidade – o que não sabem. Oito zurros a um.
Já não mais cabe dar ouvidos ou olhos a essas portas de terno e gravata. Eles não merecem respeito, e nem, por migalha, indignação. Com o perdão da palavra e das senhoras que não mereciam ter habitado tais bocas imundas, “cozinheiras”, Excelentíssimos, são suas nobres mamães.
Muitos podem não concordar, mas não vejo motivo para tanto alarde. Em meio à fumaça cinzenta provocada pela implosão do diploma, ainda respiro ares românticos.
Sempre acreditei em um jornalismo além de lides e regras formais de escrita. Para mim, jornalismo é arte e, como em toda forma desta , não existem opções. Não é você quem escolhe a arte, é ela quem te escolhe. E, acredite, os critérios delas não passam por uma olhadela em seu diploma ou por apuradas pesquisas em busca de suas qualificações profissionais. A arte, meu caro, só vê esforço e talento, muito talento.
Não serei hipócrita. Consequências virão, claro. Mais e mais babaquices serão gritadas ao público, o piso salarial provavelmente desabará, e nossa reputação será jogada no mesmo lixo em que está sendo jogado o diploma. Mas, e daí? Vamos respeitar o espaço dos quem mandam em nosso país. Há de se convir que o jornalismo também merece uma porção do que eles fazem pela sociedade com esmero, todos os dias. Grandes e brilhantes merdas.
Eu sei, prometi não dar ouvidos a eles, mas, como sou meio político, vou descumprir minha sentença. Peço aos mais exaltados compaixão, porquanto profissão digna é a deles. De coração, agradeço, homens, pelo prato de comida que vocês deram ao talento e à vontade de vencer de muitos, como eu. Eles realmente precisavam, estão em plena fase de crescimento.
A decisão está tomada. Não creio que murmurações serão resolutivas. Creio sim na força dos instrumentos de trabalho do jornalista - os ideais, o talento, a expressividade, a indignação. Cabe-nos unirmos a classe, usando da força intelectual que temos espada, lutando com argumentos, coerência e paixão à história do jornalismo. Deixemos as argumentações sem nexo, as discussões infantis e o falatório vazio para nossos amicíssimos fazedores de leis. Aliás, para ser idiota precisa de diploma?


Por Erick Gimenes

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Descontentamento descontente"

Devo confessar que a notícia de que o diploma de jornalista não é mais obrigatório me abalou. Não era para menos. A magia dos sonhos do garoto que sonhava em ser jornalista foi escorraçada em um humilhante 8 a 1.
Para mim, goleadas foram sempre indigestas. Essa então, nem me fale. Logo comigo – e com muitos amigos da área -, que ainda acreditavam nesse país, é inaceitável. Quero deixar bem claro que não tenho nada contra as pessoas da área da culinária – minha mãe é cozinheira -, mas comparar as funções de um chefe de cozinha com as de um jornalista, faça-me o favor excelência.
O povo deveria votar para que os integrantes dos nossos poderes (serão mesmo nossos?) judiciário, legislativo e executivo, sejam obrigados a terem diploma. Mas, não digo daquele que se conquista na universidade. Falo de necessidades muito mais importantes em um ser humano. Deveriam ter o diploma de vergonha na cara e aquele outro de consciência também. Ah, como poderia ter esquecido da honestidade e, do principal, lutar pelo bem – acho que fui claro o suficiente, pois eu disse o bem – da população.
Lembrei-me da famosa piada estampada em nossa bandeira nacional, “Ordem e Progresso”. Para se ter o progresso precisa de ordem, certo? Então, como teremos progresso, se o Supremo Tribunal Federal vota contra a ordem?
Deixo registrada aqui, a minha absoluta indignação quanto à falta de responsabilidade de quem comanda esse país. A não obrigatoriedade não me fará desistir. Mas, sim, parabéns nobres ministros, pois mais uma vez conseguiram mexer no meu bolso.

Serviço: Parabéns Marco Aurélio Mello por ter consciência suficiente para saber o que é certo.

Por Ederson Hising

Diploma?

Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, definiu há tempos o que tenho vontade de dizer àqueles que votaram contra o meu diploma:

"Morar nesse país
É como ter a mãe na zona
Você sabe que ela não presta
E ainda assim adora essa gatona
Não que eu tenha nada contra
Profissionais da cama
Mas são os filhos dessa dama
Que você sabe como é que chama

Filha da puta
É tudo filho da puta (2x)

É uma coisa muito feia
E é o que mais tem por aqui
E sendo nós da Pátria filhos
Não tem nem como fugir
E eu não vi nenhum tostão
Da grana toda que ela arrecadou
Na certa foi parar na mão
De algum maldito gigolô

Filha da puta
É tudo filho da puta (4x)

'Cês me desculpem o palavrão
Eu bem que tentei evitar
Mas não achei outra definição
Que pudesse explicar
Com tanta clareza
Aquilo tudo que agente sente
A terra é uma beleza
O que estraga é essa gente

Filha da puta"

terça-feira, 16 de junho de 2009

Eu ia

Sempre,
Minha professora insistia
Por vezes,
A diretora advertia
Quase nunca,
Minha mãe me batia

Sempre,
Em vez de estudar, dormia
Por vezes,
Do mundo esquecia
Quase nunca,
Da vida sorria

Sempre,
Aprendi de forma tão fria
Por vezes,
O medo me engolia
Quase nunca,
O que eu era, servia

Quase sempre,
A vida me batia

Sempre,
Por vezes,
Quase nunca,
Eu ia
Eu vou.


Por Ederson Hising

terça-feira, 9 de junho de 2009

Questões rotineiras

O que você precisa para ser feliz?
O que você espera da sua vida profissional?
O que sua família espera de você?
O que você espera de você?
Qual a prioridade na sua vida?
Você é feliz?
Repito
Você é feliz?
Ou você assim como eu,
Travou na primeira pergunta?


Por Ederson Hising

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Noite

A noite divide o dia,
Caminhando perdi as chaves,
Mas, tão logo penso em partir,
Para um lugar onde
Não seja necessário existir.


Por Ederson Hising

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O fim

O fim,
A verdade da vida
Em segredo,
Sempre escondida
Jamais conhecida

O fim,
Almas vendidas,
Corpos ao chão,
Mera ilusão,
Quem disse que há compaixão?

O fim,
Encapuzado,
Disfarçado,
Atormenta.


Por Ederson Hising

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ricos




Por Erick Gimenes

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Vida

A vida,
O que espero dela,
Ou o que ela espera de mim?

Que seja forte, seja honesto, seja perfeito,
Que seja mudo, cego, torto ou direito,
Ou apenas que siga até o fim?

Não sei...
E quem é que sabe,
Ele, você ou todos nós?

Não ouço,
E às vezes compreendo
Porque o silêncio não tem voz.


Especial, por João de Castro

domingo, 24 de maio de 2009

Impressões cotidianas – parte I

Da sacada que tem na varanda de casa, a vista é bonita. O céu não poderia estar mais azul claro. Vejo árvores em meio aos fios da rede elétrica, o telhado das casas vizinhas, um pedaço de um colégio infantil, ruas, carros e um senhor destelhando uma casa. Ele, de chapéu, bota preta, camisa surrada e calça jeans, acaba de tirar mais uma telha e calcular o que ainda precisa fazer.
Olho para o outro lado e vejo meu cachorro tomando sol. Frederico, como é chamado por minha mãe, está com cara de segunda-feira. O cão preguiçosamente levanta a cabeça ao ouvir barulhos de uma construção, enquanto um jovem passa de bicicleta com a aparência normal de uma segunda-feira.
Moro nesta residência deve fazer uma semana e alguns dias, ainda nem sei ao certo o nome da rua e se faz parte do centro ou de algum bairro. Pelo que ouvi meu pai dizer a ruela leva o nome do avô de um amigo meu. Mas, ainda preciso confirmar, afinal, um jornalista sempre tem a obrigação de checar as informações.
Duas senhoras passam fofocando do filho de alguém e Frederico late para um cobrador. Certo ele, cumprindo o papel que lhe cabe. Por um instante volto a enxergar a vida como um ser racional e atendo o homem que perguntou do meu pai. Respondo com educação, o senhor agradece e enfim, volto ao meu momento de inspiração.
De repente, tudo fica em silêncio que somente é quebrado com o barulho da vinheta do Vídeo Show oriundo da televisão ligada na sala, onde minha mãe tira uma soneca. Sentado, volto meu olhar para o telhado onde o senhor de chapéu tirava telhas. Aos poucos ele reaparece, agora, munido de uma “colher de pedreiro” e um balde com concreto.
Sozinho, como de costume, lentamente proporciono o encontro de minhas pálpebras. Mesmo de olhos fechados continuo a observar o lento e paradisíaco começo de tarde de uma cidade interiorana, até mesmo porque, é sempre igual.
Lembro dos meus tempos de garoto quando jogava bola no quintal uniformizado com o – como diria meu avô – fardamento do glorioso alvinegro praiano. Naquele tempo era tudo mais fácil, eu brilhava. Era o artilheiro e mentor da equipe. Agora sou apenas mais um entre tantos. Não jogo mais bola, a não ser uns “pelinhas” com amigos aos finais de semana. Minha carreira é outra, porém não menos disputada.

- Filho! Acorda! Tá na hora de ir pra faculdade.


Por Ederson Hising

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vida devida

Para onde queres ir, vida?
Te crias, toma-te primeiro um rumo
Não te apresses em ser grande
Ouça-me bem
Lhe digo por ser bondoso
Tens sido por muito desobediente
Por isso, jamais esqueça o que vou lhe dizer
Escova-te bem os dentes
Há tempo não a vejo sorrir com brancura
Não aceite ajuda de estranhos
Balas são recheadas de maldade com hortelã
E, ah! Ponha-te já meias e blusa, menina!
Pode resfriar-se com o coração dos homens
Pulmões com hipocrisia é morte na certa
Ao ver ruas de esperança,
olhe para os dois lados
Caminhões de medo passam a toda velocidade
Pare de correr desse modo
Pode cair, e nunca mais voltará a ser a mesma
Entenda-me, não quero ser só azedume
Falo por que lhe quero bem, minha linda
Mas, por favor, obedeça-me
Já é escuridão
Acho melhor que vá dormir
Lembre-se do que sempre lhe falo
Cubra-se bem
A noite é como o mundo deste tempo
Frio
Frio e sombrio


Por Erick Gimenes

terça-feira, 19 de maio de 2009

Enfim

O incrédulo padeceu,

Do nada, sem explicação,

“Solito a reinar”.

Não dependia de si,

Sozinho, não sabia caminhar,

Ele que já tinha desistido,

Entregado os pontos,

Declarou-se e depois,

Dormiu ao som de “Fez-se mar”.


Por Ederson Hising

domingo, 17 de maio de 2009

O Beijo Sem Rima

O tempo parou com o rosto virado pra mim
Eu disse, o tempo parou!
Tudo ao meu redor parecia neutro
Era a adolescência se renovando em meus olhos.

Usei o artigo definido para expressar singularidade,
O beijo no rosto é injusto, aquele foi mais ainda.
Se beijo no rosto passasse informação,
Ela teria virado o rosto na hora.

Beijei.
Na lógica do beijo, o roubo é justo,
Por isso, fui injustiçado.

Mas deixa pra lá...
Só o próprio tempo explica certas decisões.



Especial, por Paulo André Zarpellon

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tarde Chuvosa

Abalos sísmicos no peito
Assim, como se nada estivesse direito,
Caminhando sem pé nem cabeça,
Fugindo, antes que o pior aconteça

Lá fora, a chuva forte,
Meus dias indo sem norte,
Acompanhados pela
Rotineira falta de sorte

Percepções equivocadas,
Erros, falhas,
Protegido por mentiras
Tomando decisões erradas

O barulho, ensurdece,
O frio, adormece,
O estranho, emudece,
O óbvio, enlouquece.


Por Ederson Hising

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pisei no meu óculos

Pela enésima vez tive a capacidade de pisar no meu próprio óculos. Sim, por mais que a medicina ocular evolua e que seja do conhecimento de todos que convivem com este escriba que ele usa lentes de contato, o jovem senhor ainda é escravo “dos óculos”.
Como se não bastasse ser portador de um elevado grau de miopia fui agraciado e contemplado eternamente com um tanto, que não sei quantificar, de astigmatismo. Traduzindo sem o auxílio de lentes de contato e do pisoteado óculos, não enxergo longe e o que vejo de perto fica embaçado. Espero que nenhum oftalmologista ao ler esse texto - se é que algum lerá - venha dizer que estou equivocado nas explicações, afinal, o problema quem tem sou eu. Tenho consciência para saber como e o quanto sou capaz de enxergar. Ainda, ainda!
Toda essa indignação com oftalmologista tem nome e sobrenome. Por motivos éticos paro por aqui. Apenas adianto para vocês, caros leitores, que um membro desta classe tratou meu problema de forma errada quando eu era um pequenino ser. O pior é que não existe cirurgia para a doença que tenho nos olhos, a qual nem sei o nome ao certo.
Eu só teria uma chance de enxergar normalmente, essa que o incapacitado disfarçado de médico jogou no mato. Anos mais tarde, quando realizei exame de visão para tirar minha habilitação, o tal médico, me considerou sem visão no olho esquerdo que eu enxergo – pouco, mas enxergo – e olho esse que ele deveria ter tratado corretamente.
Voltando ao assunto da escravidão, desde os 4 anos de idade - quando meu problema foi descoberto - uso óculos. As piadainhas não faltavam, “né quatro zóio". Claro que agora passo os dias com minhas lentes de contato. Porém, não posso dormir com elas e é exatamente ai, que meu óculos entra na história toda. Ao retirar e higienizar as lentes de contato, tomo posse do "amigo de infância". Este que utilizo para escrever algumas ideias à frente do computador. Feito isso, auxilia-me na caminhada até a cama e posteriormente é minha companhia para assistir ao Programa do Jô.
Quando chega o sono, lá pelas tantas da madrugada, retiro o querido companheiro e coloco-o ao chão, praticamente embaixo da cama. Só que dia desses, este ser estabanado acordou atrasado para ir trabalhar - o que faço diariamente -, até então nenhuma novidade. Mas, ao levantar querendo tomar café e banho ao mesmo tempo, eis que piso no coitado do óculos. Perna pra cá, resto pra lá. A haste esquerda ficou unida ao restante do óculos, creio eu, por dó. Àquela altura larguei o coitado jogado e todo "tronxo", como diz minha querida mãe, afinal de contas, eu precisava cumprir as metas individuais do PPR (Programa de Participação nos Resultados) e chegar atrasado mais uma vez seria um grande revés.
Horas mais tarde, ao retornar do trabalho, entretanto, não menos irritado em ver meu querido companheiro quase mutilado, coloquei a velha tática da gambiarra em ação. Nada que uma fita adesiva não tenha dado jeito na situação do pobre amigo de madrugadas. Tenho que admitir que olhar para baixo portando meu óculos não posso mais, pois, além de ter que refazer a gambiarra, riscaria as lentes, se é que tem lugar para mais algum risco.
Mesmo não sendo um fã de ter que usar tal acessório e sabendo que a qualquer momento posso ficar sem minhas lentes de contato, afirmo com convicção (também pudera, pois sem as lentes é ele ou nada) que não teria a mesma emoção ver o fusca verde de Erick Gimenes, as camisetas do Corinthians de Paulo André, as fanfarronices de Wilame Prado e Alessandro Trindade no serviço, muito menos as longas madeixas de Felipe Botion, sem meu velho companheiro de visão.
E já que a grana anda bem curta e meu óculos serve apenas de quebra galho, prefiro gastar meus trocados em outras freguesias. Mesmo pensando e pensando, ainda não encontrei definição melhor para meu amigo de longa data do que a da minha amiga Ana: "torto igual o dono".
Por Ederson Hising

terça-feira, 5 de maio de 2009

Eu em Cartola

"Quem me vê sorrindo
Pensa que estou alegre
O meu sorriso
É por consolação
Porque sei conter
Para ninguêm ver
O pranto do meu coração

O pranto que eu verti por este amor
Talvez
Não compreendeste
E se eu disser, não crês
Depois de derramado
Ainda soluçando
Tornei-me alegre
Estou cantando

Compreendi o erro
De toda a humanidade
Uns choram por prazer
E outros com saudades
Jurei e a minha jura
Jamais eu quebrarei
E todo o pranto esconderei."

Cartola


Por Erick Gimenes

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Assassinato

Lembro-me bem.
Éramos unha e carne. Não nos desgrudávamos de forma alguma.
Ah, como aquela infância nos tornava brilhantes!
Todas aquelas peripécias, aquelas gargalhadas tresloucadas, aqueles momentos de solidão. A qualquer viver, lá estávamos nós, inseparáveis, dependentes.
Não foi fácil perdê-lo como perdi.
Era outono, o vento gelado nos estapeava, deixava-nos frios da mesma maneira que sua nascença, nos oceanos.
Fatídico dia em que ele me fitou, cumprimentou-me com a inocência estendida, com romantismo. Quão grande era a confiança dele num mundo perfeito.
Seu último olhar, piscou alegria para mim.
Foi o último suspiro, a ultima vez que vi meu irmão saudável, como sempre foi.
Não sei ao certo como ocorreu, mas vou lhes contar o que bordaram.
Dizem que eram cinco, meio rechonchudos, e que o renderam de forma desumana.
Ato fulminante.
Num piscar de olhos, os desgraçados já estavam impregnados, meu irmão, rendido.
Amedrontavam-lhe. Dia-a-dia, obrigado a se abrir, saturava-se com a presença daquele mau redondil.
Ficou mal. De tanto se abrir, fechou-se. Não tinha mais forças, não havia mais esperança.
Seu olhar fluorescente apagou-se dias depois.
O pior ainda havia de vir.
As autoridades, acionadas, bateram no peito com soberba exagerada e disseram que resolveriam o caso.
Inicialmente descrente, acabei por confiar. Fui burro, tão quanto os homens.
Desgovernados, entraram em cena e começaram o terror. Com facas, desferiram golpes em tudo que respirava e, como já se antevia, meu irmão fora atingido várias vezes.
Carnificina.
Sangue, medo, cegueira, sangue.
Sem palavras.
Até os dias de hoje decreto minha incessante tristeza com lágrimas de dor.
Não consigo ver mais o mundo sorrir, já não brilho esperança, já não enxergo adiante.
Sua morte fez nascer em mim a indignação que deixo aqui explícita com minha angústia.
Um tersol e um olho esquerdo.
Pequena marola do ruim afogando grandes mares do bom.
Que fato!
Eu, direito, estou incapaz de endireitar-me.
Que esperança há? Não sou mais nítido.
Assassinaram meu lado esquerdo, lá estava o coração.


Por Erick Gimenes

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Jovem senhor

Tudo caminhava sem graça. O jovem de idade, mas velho de alma e cabeça sentia o mundo sem chão e o vento cortante no rosto. O cotidiano o consumia de uma maneira avassaladora, assim, como se a vida se resumisse em não viver. Sentimentos inconfessos embolados com ideias mirabolantes faziam do rapaz um vegetal, um sem rumo, um ser sem sentido.
Por mais inconformado que estivesse com a faculdade, a casa, o trabalho, os amigos, não percebia o porquê de todo esse inferno. Algo o conflitava todas as noites quando repousava a cabeça – inchada – no travesseiro. As costas doloridas e os ombros embolados eram sintomas de que já estava pesado demais para si mesmo.
Não percebia mais a alegria em simples gestos ou atitudes. Ranzinza e xarope, como era definido por um velho senhor, havia perdido a vontade de ser feliz. Da mesma maneira como se estivesse embriagado – e porque não o estaria –, as lentes de contato não davam mais conta do astigmatismo (ah maldito astigmatismo amigo da inconveniente miopia). Sim, bêbado ou não, não enxergava nada da forma como deveria.
O universo inteiro conspirando negativamente. Ele tropeçava em suas atitudes infantis. Atos impulsivos e impensados o levavam ao buraco. O sabor azedo da infelicidade ao som de caminhões na estrada e das batidas de peças de um ônibus. Lá estava o jovem senhor, escorado, olhando com as pálpebras pesadas através dos vidros embaçados.
A vontade era de se embriagar e esquecer que país é este. Sozinho, como era de praxe, vestindo roupas clichês, sentou à beira de um balcão e afogou as magoas em copos americanos – com cheiro de detergente –, cheios de cerveja barata. Ali, exatamente ali, percebeu como o mundo gira rápido demais para ficar em pé, como também, ainda teve consciência de notar como tudo passa tão devagar quando se tem pressa.
Sem luz no final do túnel, o drama engolia esse jovem senhor, que sem mais nem menos, resolveu viver por um dia. Relembrou como era sorrir, ter amigos verdadeiros, vontade de acordar e prazer em perder (ah como é incrível saber perder!). O motivo para isso tudo, ele faz questão de esconder, até mesmo da mente mirabolante que possuía.
Quem sabe, um alguém, uma razão que faltava, tenha dado as caras e mostrado que às vezes – ele diz no sentido real da expressão –, não vale à pena esquecer quem é, o que faz, quando precisa voltar para casa e correr atrás do que traz um conforto, pois em ser feliz, ele já era velho demais para acreditar.


Por Ederson Hising, talvez um jovem senhor

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amor-mãe



Por Erick Gimenes

domingo, 19 de abril de 2009

Que nem o

Amarelo podre,
Amarelo manga,
Que nem o do filme

Vermelho vivo,
Vermelho forte,
Que nem o do sangue

Azul oceânico,
Azul na exata proporção,
Que nem o do céu.

Verde insólito,
Verde dos verdes,
Que nem o dos arbustos

Roxo obsoleto,
Roxo do machucado,
Que nem o do caixão

Laranja ácido,
Laranja alaranjado,
Que nem o da fruta

Marrom sujo,
Marrom sofrido,
Que nem o da terra

Cinza que não é preto,
Cinza que não é branco,
Cinza medíocre

Preto surrado,
Preto manchado,
Que nem o dos pulmões

Branco mal utilizado,
Branco forçado,
Que nem o da paz.


Por Ederson Hising

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Dica de Cinema - "Escolha Única"

Caros leitores, a seguir está o trailer do filme "Escolha Única", produzido, dirigido e protagonizado por meu amigo e cineasta maringaense Érico Alessandro. Acompanhei brevemente a rotina desse guerreiro artístico e tiro o chapéu para o trabalho que ele faz. Uma cabeça determinada e inovadora, que por dedicação à obra, acabou por descansar alguns dias em uma banheira de produtora. Bobagem. Pelo que acompanhei, isso não fez cócegas ao impeto do cineasta. Peço que dêem atenção a essa produção nata maringaense, de um cara que bateu no peito e falou "se não houver ajuda, não tem problema, faço tudo sozinho". Passem a valorizar mais o trabalho desses caras que lutam com todas as forças pela arte, e pela arte regional.




Por Erick Gimenes

domingo, 12 de abril de 2009

Monotonia

Logo ele,
O sono, impedindo
Descansar,
Deitado vê o teto girar
E a vida fugindo,
Sem controle
Não questionava
As notas dos jornais,
E o barulho
Que entrava
Agredindo,
Nada tinha a mesma graça,
Nem sequer
A mesma cor,
Era chegada hora
Da melancolia,
Dos dias intermináveis,
Dos versos sem rima,
Da dor
Via tudo escorrer
E sem perceber
Transformou-se,
No que mais temia,
Sem querer
Está onde não queria
A velha monotonia,
Sem escolher
Tudo passa,
Nada acontece,
Apenas ocorre.


Por Ederson Hising

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Órbita

Não há mais ar,
Não tenho mais ar
Por favor, ponha-me no chão
Por favor, pare de rodar
Não há horizonte
Se não houver um solo
Sente-me
Estou caindo
Por favor, sente-me

Quantas telas em aquarela,
Dissolvidas a dor
Pinturas
Pinturas
Mentes borradas a óleo
Vivências cubistas
Estou à órbita
Aqui não há suspiro
Aqui não há esperança

Como faço para sair?
Como consigo retornar?
Viajarei até os fins
Uma imposição da realidade
Oh, realidade absurda!
Há de se ver
Quão sem rumo vago
Quão vago é rumar
Não há mais ar
Não há mais

Por Erick Gimenes

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O tempo passa e o palhaço nunca morre

“Alan W. Livingston, o executive musical que criou o palhaço Bozo, morreu na sexta-feira (13), aos 91 anos. Ele era famoso também por ter contratado os Beatles enquanto era presidente da gravadora Capitol Records. Ele faleceu de problemas relacionados à idade avançada, em sua casa em Beverly Hills, afirmou a enteada Jennifer Lerner.” Retirado do site
http://g1.globo.com/Noticias, dia 14/03/2009.

E o “pai” do Bozo morreu! Sim, o nobre criador desta figura tão presente em nossas vidas, seja nas piadas, ou na primeira imagem que se tem na cabeça de um palhaço, partiu dessa para uma melhor. Dormiu com o Bozo? Quem nunca ouviu essa infame piadinha? Claro que essa não foi criada pelo palhaço, muito menos pelo grande criador do nosso querido e amado Bozo.
No Brasil, Bozoca Nariz de Pipoca, foi encarnado oficialmente na televisão por seis atores. Grande sucesso televisivo na década de 1980, ainda tem seus seguidores pelo Brasil e mundo afora. Em meio a tanto sucesso já conquistado e a tanta palhaçada (como não poderia deixar de ser), não é de se espantar que ainda hoje existam intérpretes do “nosso” Bozo, rodando por ai.
Porém, quando falo que ainda existem intérpretes do imortal Bozo, quero que vocês, leitores, comecem a prestar mais atenção no que veem. Certas figuras caricatas insistem em sempre soltar mais uma pérola, como é o caso dos palhaços e de nossos políticos. Seja entre os deputados, senadores, governadores, prefeitos, presidentes, não só o da nossa (será mesmo nossa?) República e vereadores, sempre existe e existirá um Bozo.
Coitado do palhaço, não merecia tanto descrédito e falta de consideração de minha parte. Mas, fica complicado não pensar e relembrar de uma figura tão engraçada que remete a infância de muitos (a minha também), quando vejo o que esses “Bozos” disfarçados de letrados fazem com o País.
Pitorescos e fajutos, assim como suas piadas, os nobres palhaços eleitos por nós, não gostam da gente e enganam, infelizmente com êxito na maioria das vezes, nós os brasileiros, mais conhecidos como “as criancinhas”. Escândalos em CPI´s, fraudes maquiadas, impostos desviados, condutas ilegais, muito fácil enumerar as mazelas políticas do Brasil. Uma pesquisa no Google certamente te dará toda a lenha necessária para saber do que estou falando.
Fiscalizar. Deveríamos nos aproximar mais dessa ação. É papel dos eleitores ficar de olho no que os Bozos estão fazendo. Impostos cada vez mais altos, e, subindo na mesma proporção que os números das contas bancárias, ilegais ou não, de grande parte dos governantes.
Está escancarado para quem quiser ver o que tem sido feito contra nós, levando fama de que é para o bem de todos, porque vivemos em uma democracia, demo o quê? Até quando vamos ficar aplaudindo esses palhaços que acham engraçado passar o povo para trás? Importante salientar que, o “pai” do Bozo morreu, no entanto, é bom abrir os olhos porque o palhaço nunca morre.
Por Ederson Hising

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Medo Perpétuo



Por Erick Gimenes

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ao amigo João

“Eu não vejo nada demais,
Eu não ouço nada demais,
Eu não sinto nada demais,
Só mesmo o caos”
Sobretudo um louco
João - como poucos -,
Exato em suas considerações
E exato também,
Nas mesmas proporções
De suas baladas místicas
O seu inferno astral,
Capricórnio!
Esbórnia mental
Coisas intrínsecas,
Misterioso que amou
O que não pôde ter
E em tudo, vida!
Onde as idéias têm guarida
Um nômade no cartaz
O cara de óculos escuros
Cantando lá atrás
Primavera, vida!


Por Ederson Hising

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Eu

A mente nua,
a imaginação nonsense
Uma ousadia quieta
Um quieto ousado
Uma inquieta imaginação
e um nonsense genial
Só relâmpagos de genialidade,
Muitas burras chuvas
Tempestades de uma mente
Um burro nu

Por Erick Gimenes

segunda-feira, 30 de março de 2009

Assuntos desconexos

Dentes amarelos,
Tênis apertado
Vontade de vencer
E travado pelo vício de perder

O sabor da derrota
Não é tão amargo
Principalmente,
Quando se torna algo natural
A vontade pelo por vir,
Um sonho banal

Sinto como se cada pé
Tomasse um rumo
Perdido e sem prumo
Vejo árvores pela janela
Idiotice pensar
Que existe alguém à minha espera

Rimou bem,
Soou trágico
Quando algo simples
Torna-se mágico

Bom, acho que isso
Nunca aconteceu
Pelo menos comigo,
Ser humano perdido

Cabeça nas alturas,
Frustrado,
Frases desconexas,
Que no fundo fazem sentido

Pensar na vida é entender
Que não existe saída
Não adianta gritar calado
Mão no casaco
Bato a porta,
Estou de partida

Sinal fechado,
Carteira vazia
Seremos um dia
Fotos de estante
Lembrados,
Em algum instante

Mente confusa,
Sorriso pálido
De algum modo
Sem graça
E por mais que faça
Não é como antigamente

Eu sabia ser feliz
Felicidade,
Embaixo do nariz
Era fácil,
Mas não entendia

Hoje,
Por vezes renovado
E ao mesmo tempo
Completamente desanimado.

Por Ederson Hising

sábado, 28 de março de 2009

Filme de Terror

Só vejo mortos-vivos. Desorientados, desacordados, mal-cheirosos e feios, muito feios. Seus olhares fechados se cruzam naquele salão. Suas faces boquiabertas, babam a impotência de não poder fazer nada além de estar ali, apáticos, imóveis. Presos, ali eles permanecem dia a dia, numa espécie de contagem regressiva para a implosão de suas histórias, e sob a vigilância e o cuidado dos vampiros. Ah, os vampiros! Vestidos com roupas pomposas, sustentam-se assim. Ficam ali, a todo instante, prontos a se lançar ao primeiro pescoço que ousar sair da estática posição a que foram acomodados. Outrora, sugam-lhes aquele sangue vermelho claro, já quase frio. Falsa sensação poder. Por aqueles mares, quem navega às pampas são os fantasmas.
Vestes brancas, imponência, ócio. À cadeira, expelem arrogância e ruídos assustadores, enchem o peito para gabar-se: podem estar em qualquer lugar, a qualquer hora. Não há discussão, são os melhores, afinal, passaram por uma vida a chegarem até ali, não?
Por vezes, Freddy passa para nos visitar. Há dias que, atordoado, esquece uma cabeça ou outra. Mas não há mal, sempre volta a buscá-las. Ainda faz gracejo, diz que trabalhar em casa não faz bem.
Vou lhe dizer. No início amedrontei-me com a situação. Por noites ficava reproduzindo aquele cenário em minha mente sonolenta, não conseguia pregar os olhos.
Era engraçado. Minhas pálpebras de modo algum encaixavam-se em uma posição confortável para o descanso.
Mas, como em tudo por aqui, acabei por me acostumar. Não havia e não há outro jeito.
É como..
Só um minuto.
Por favor, passe-me o bisturi, Jason?


Por Erick Gimenes